A Itinerante
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Adriel

10) O Medalhão das Fadas

by A Itinerante - Neiva 30/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

“Será mesmo que ela está tão atraída por mim quanto eu por ela? Não deveria, mas gosto disto. Gosto demais até.” – Estava realmente feliz naquele momento, após ouvir aquele elogio tão espontâneo.

“Como ela consegue ver minhas asas e o brilho? Nenhum outro humano até hoje conseguiu. Gostaria de lhe contar a verdade. Embora não tenha mentido, dei a entender que estava vendo coisas. Agora está confusa e é melhor assim. Não posso deixar que saiba da verdade. Iria querer saber mais e seria perigoso para nós e muito mais para ela.” – Dirigia parecendo concentrado na direção, mas na realidade estava pensando.

Ela também parecia distraída em seus pensamentos e ficamos os dois em um silêncio pacato e agradável. Estar com ela era assim: surpreendentemente bom! Na volta poderia perguntar e saber mais sobre ela. Agora apenas aproveitava esta quietude gostosa envolvido pelo calor de nossos corpos na noite um pouco fria.

Logo chegamos à casa de Antônio, bastante iluminada. De fora ainda ouvimos o som da música regional. Ele estava nos aguardando na entrada e abraçou Maise com carinho, cumprimentando-me com os olhos ao mesmo tempo.

A festa acontecia em seu imenso quintal com o cheiro da carne que assava na churrasqueira impregnando todo o ambiente, uma pequena fogueira em outro canto assando espigas de milho e batatas doces, várias mesas com cadeiras espalhadas e uma maior com comidas e bebidas. Parece que a vila inteira tinha vindo. Reconheci diversos aldeões e suas mulheres em vestidos floridos e alegres. Até as crianças estavam aqui, brincando juntas.

Quando entramos, todos nos olharam. Já me conheciam e embora pudessem estranhar minha presença era em Maise que se concentravam. Percebi o interesse mais do que casual em alguns moços e até mesmo nos homens casados. Devia ter imaginado. Maise era linda. Sua pele branca, os cabelos dourados e os olhos azuis não eram comuns nem mesmo em cidades maiores, mas aqui forneciam um contraste forte com a pele bronzeada e os cabelos e olhos escuros das aldeãs.

Aproximei-me mais dela. Não a deixaria à mercê destes homens. Toquei-a delicadamente no braço, perto do cotovelo. Era delicioso a tocar e como não fez nenhum gesto para se afastar, deixei ali minha mão. Era um recado claro e podia ver que não gostaram. Melhor assim. Ela era jovem, inexperiente e indefesa demais para lidar com estes matutos.

Antônio nos levou de lado a lado apresentando todos: Mário, o dono da farmácia, José, gerente do banco, Cida, dona da loja de roupas e tantos outros que logo os nomes e os rostos se tornaram um borrão confuso. Foram muito amáveis e logo estávamos ambientados, conversando e rindo. O som estava mais baixo agora de modo a permitir algum conforto nos diálogos.

Comemos sentados na mesa de Antônio e sua esposa Marta que Maise já conhecia. Riram lembrando-se da quantidade insana de pó que tiraram da cabana no primeiro dia e combinaram uma visita no próximo final de semana.

Não sai de seu lado, pouco interessado nas conversas, apenas a observando. Ela parecia à vontade e feliz. Era um prazer ver como interagia alegremente com eles.

Após o jantar a música ficou novamente alta e rápida. Maise não quis dançar e fomos para a sala onde um pequeno grupo conversava animado. Apresentaram-nos a uma mulher a quem ainda não conhecia: Rita. Maise a reconheceu. Era a dona da loja de bijuterias que tinha uma barraca na feira. Maise mostrou-lhe o medalhão no colar que levava ao pescoço e que até então estivera oculto pelo vestido.

Notei o choque de Rita. Ficou pálida, observando-o muito mais tempo do que seria normal antes de falar:

– É o símbolo de proteção das Fadas. Parece original e não cópias como os que vendo, ainda que não possa saber ao certo porque nunca vi um original. Como o conseguiu?

– Foi um presente de minha mãe, quando fiz 18 anos. Como assim original? – Maise perguntou.

– Já vi em alguns livros que estudei sobre o assunto. Elas presenteiam humanos de quem gostam com um destes e é um amuleto de proteção além de distinguir o portador para outros Elementais, caso vejam.

– Elementais? – Maise parecia confusa ao perguntar.

– Seres etéreos que representam os quatro elementos básicos da Terra: ar, água, fogo e terra. São as fadas, duendes, elfos, salamandras, ondinas, sílfides e muitos outros. Pequenos seres que cuidam de nosso planeta e também dos humanos, caso algum saiba se aproximar e os cativar. Dizem que Portal do Sol é a entrada para o mundo encantado de Etera, onde vivem.

– Sério? – Maise estava interessada. Será que estava acreditando?

– São lendas, basicamente. Estórias que se contam. Ninguém tem fotografias ou provas da existência deles, ainda que nós aqui em Portal acreditemos neles. – Respondeu Rita levantando-se.

– Desculpem, lembrei-me de algo. Tenho que ir agora. Quando puder, apareça em minha loja, conversaremos mais sobre as Fadas e mostro os livros e ilustrações que tenho. – Então se despediu dos mais próximos e saiu parecendo apressada.

Maise olhou-me curiosa como que perguntando o que eu pensava sobre o assunto. Dei de ombros, como se fossem bobagens que nem considerava e que tanto fazia serem verdadeiras ou não. Ela pareceu desapontada, mas contar-lhe o que sabia seria tão ruim quanto dizer sobre as asas. Era melhor deixar o assunto morrer.

Enquanto estávamos conversando na sala, o som mudara e agora as melodias eram lentas e românticas. Todos se encaminharam novamente ao quintal, incluindo nós, para observar os casais dançando.

– Dança comigo, Adriel? – Perguntou ela, olhando-me com aqueles olhos azuis profundos. Seriam meu fim, certamente. Não conseguiria recusar. O problema é que não tinha a menor idéia de como dançar, se bem que observando os humanos, não parecia tão difícil. Difícil seria estar com ela assim tão próxima, quando deveria afastar-me. Só esta noite, tinha me prometido. Foi esta a desculpa que me dei quando a acompanhei até a pretensa pista de dança no centro livre do quintal.

Texto registrado no Literar

Imagem: montagem minha à partir das fotos de dois pingentes encontrados na net.

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9) Beleza de Perdição

by A Itinerante - Neiva 28/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Quando entrei no carro estava curiosa para saber como ele encaixaria aquelas asas enormes e o corpo ao mesmo tempo no assento, então fiquei observando. As asas atravessaram o encosto do banco e o assento, parecendo imateriais.

– Uau! – Soltei sem querer. Ele virou-se para mim.

– O que foi? – Interrogou.

– Suas asas atravessaram o encosto, ao contrário de seu corpo. Como faz isto? – Expliquei e perguntei ao mesmo tempo.

– Você vê asas em mim? – Ele pareceu chocado e ao mesmo tempo preocupado.

– Sim. Enormes e muito brancas. E você brilha também. – Acrescentei rápido.

– Dizem que artistas têm uma mente extremamente fértil, mas asas??? – Ele tinha demorado alguns segundos para dizer isto.

– Está insinuando que imagino as asas? E o que diz disto? – Estendi a mão para tocar as penas mais próximas. Meus dedos atravessaram o branco como se não existissem. Tentei pegá-las mais algumas vezes. Nada!

– Isto o quê? – Ele disse tentando não rir.

– Pare! Não posso tocar, mas estou vendo. Você sabe que estou dizendo a verdade! – Exclamei, mas não havia nada a fazer realmente. Não podia provar que existiam. Tinha certeza do que estava vendo e hoje estava descansada e tranqüila. Não poderia culpar um hipotético stress por esta visão. Mas, será que existiam mesmo? Estava começando a duvidar. Ninguém as via e seu dono estava negando existirem.

– Hum rum. – Ele concordou como se não quisesse discutir com alguém que via asas.

– “Droga! Será que estou mesmo imaginando coisas?” – Pensei sem saber mais o que dizer.

– Foi por isto que saiu correndo naquele dia?

– Foi. Pensei que era um Anjo da Morte que estava vindo para me levar ou que já tinha morrido

– Hahaha! – Ele riu com gosto sem conseguir mais se conter. Cruzei os braços no peito, furiosa, com vontade de estapeá-lo. Ele estava tentando se controlar e afinal conseguiu.

– Desculpe. – E piscou para mim. – Deve ser mesmo assustador ver um Anjo da Morte caminhando em sua direção – O canto de seus lábios tremeu com a risada presa. Não conseguiu por muito tempo e acabou rindo novamente. Fiquei olhando, tentando manter a raiva, mas era difícil. Seu riso era muito contagiante e estava quase rindo junto.

– Desculpe novamente. – Disse quando conseguiu parar, enxugando os olhos com as mãos. – Você falou algo a respeito de brilho?

– Não vou dizer mais nada. Você vai rir novamente.

– Certo. Esquecemos este assunto então? – Propôs.

– Por enquanto. – O que podia fazer? Continuava vendo suas asas e seu brilho. Não era ofuscante, de cegar, mas estava lá. Uma luminescência branca, por vezes prateada, como se uma nuvem de minúsculas lâminas destas cores o envolvesse. Era diferente e bonito. As pessoas deviam ser todas luminosas assim. Sorri ao imaginar um mundo colorido, cada um com sua nuvem.

Ele deu partida no carro e saímos devagar pela estrada já um pouco escura. Postes esparsos distribuídos ao longo do caminho não o iluminavam completamente.

– Antônio fez bem em pedir a você que me levasse. – Estava contente mesmo. Não apenas por isto. Tirando esta coisa das asas e do brilho era ótimo não estar só. E melhor ainda que fosse ele ao meu lado. Aproveitei que estava concentrado dirigindo para observar quietinha, sentindo o calor agradável que vinha de seu corpo e aquela beleza irreal.

Seus cabelos eram pretos e bagunçados. “Devem ser macios como nuvens” – Pensei. A pele tinha uma tonalidade diferente, branca e suave. Não parecia pele de verdade. Mesmo que não fosse transparente e parecesse ser sólida, achei que afundaria se a tocasse ou que minha mão atravessaria para o outro lado, como aconteceu com as asas. Então lembrei que ele tinha me tocado por duas vezes na cabana. Seu toque era firme e quente. Agradável.

Todos os traços eram perfeitos e harmônicos. Nada grande ou pequeno demais. Exceto os olhos, imensos, não sabia ainda se verdes ou azuis. Talvez uma mistura de ambos, como a cor do mar na enseada. Turquesa. E a boca, grande também e carnuda. O nariz bem feito, a testa reta, maçãs do rosto não muito proeminentes. Tudo na medida exata. “Perfeito.” – Pensei.

Pescoço alto, ombros largos, braços musculosos, mas não demais. Impressão de força e energia. O peito reto e poderia apostar como haveriam gominhos de músculos próximos ao abdomen.

“Ah, meu Deus, isto não vai bem!” – Fechei os olhos para readquirir equilíbrio antes de prosseguir. Pernas longas e grossas, certamente musculosas, e como os braços, não demais, apenas na medida exata.

“Até os dedos dos pés são bonitos! Estou perdida!” – Suspirei. Voltei o olhar para cima e Adriel estava me observando e sorrindo.

– Já terminou o inventário? – Perguntou. Abaixei novamente os olhos sentindo minhas faces queimarem. Então fiz a única coisa honesta e possível nesta situação: levantei os olhos, sorri abertamente e disse:

– Já. Você é mesmo uma perdição de lindo! – Que se danasse a compostura. Jamais conseguiria resistir a tanta beleza e se ele fosse mesmo um anjo o inferno era líquido e certo para mim.

Ele riu e o som de sua risada era uma música deliciosa.

Texto registrado no Literar

Imagem: montagem minha de Edward e asas de XerStock

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8) O primeiro encontro

by A Itinerante - Neiva 25/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Ela abriu a porta. O cheiro de banho recém tomado e sabonete escapou do ambiente e penetrou refrescante em minhas narinas. Usava um vestido de alças, deixando os ombros e o colo delicado à mostra. Seu rosto estava iluminado pelo sorriso. Pena que assim que me viu, encerrou-o.

“Quem ela estava esperando?” – Pensei enquanto a observava abrindo a boca surpresa. Parecia uma repetição da praia e quando começou a levantar a mão, lembrei-me que após tapar um grito saíra correndo tão rápido que nada pude fazer.

“Desta vez não!” – Instintivamente segurei seu braço para impedir que fugisse.

– Você não vai sair correndo, vai? – E complementei com um sorriso, esperando ser o suficiente para a reter.

– Nããão. – Respondeu, parecendo ainda indecisa.

– Sou Adriel, seu vizinho. Moro na outra ponta da praia. Antônio pediu-me que lhe desse uma carona. Ele não te avisou? – Expliquei ainda segurando delicadamente seu braço. A pele era macia e quente e não tinha pressa em retirar minha mão. Ela pareceu confusa ainda, mas logo reagiu.

– Hum… Espera, quer dizer, entre. – Seguiu apressada para o interior e acompanhei-a. Pegou uma bolsa em uma mesa e tirou de dentro um celular, olhando-o séria. Mostrou-me.

– Sem bateria. Esqueci. Antônio deve ter tentado falar comigo e não conseguiu. Espera um minutinho, Adriel? – Sorriu levemente ao dizer a última frase ao mesmo tempo em que já ia em direção à uma tomada elétrica. Ligou o aparelho no recarregador e logo começamos a ouvir bipes.

– Está vendo? – Mostrou-me o celular como se fosse uma prova. Então discou um número e começou a falar com Antônio.

Ouvi vagamente enquanto explicava a ele porque não atendera a seus chamados. Estava vendo o interior da cabana e sentindo todos os cheiros que exalava. Banho fresco, flores, frutas. Tão diferente dos que me rodeavam. Totalmente feminino. A decoração era simples e rústica parecendo não combinar com ela e lembrei-me que era de seu pai antes. A um canto um cavalete virado para a parede. Antônio disse que era artista. Senti curiosidade em olhar para ver o que pintava e como era o estilo, cores e luzes que usava e também o tema. Queria ver aquela tela. Conheceria muito sobre ela apenas de ver uma de suas pinturas e só a boa educação impediu de desvirá-la para olhar. Mais tarde talvez me mostrasse se pedisse e pediria certamente. Neste momento encerrou a ligação e virou-se para mim, dizendo:

– Desculpe. Antônio se esqueceu de avisar quando nos falamos na vila e passou o dia tentando falar comigo, sem conseguir. Estava preocupado, já. – Parecia realmente constrangida.

– Não se preocupe. Estas coisas acontecem. – Apesar de tudo esclarecido ela continuava quieta, olhando para os dedos dos pés e parecia triste ou era imaginação? – Está tudo bem agora?

– Está. – Respondeu. E continuou imóvel. Nada parecia estar bem.

– O que houve? – Arrisquei perguntar. Ela suspirou, caminhou até a cama e sentou na borda lateral, com joelhos unidos apoiando o queixo em ambas as mãos antes de responder. Parecia frágil e pequena e contra a vontade consciente meu instinto era de pegá-la no colo e consolar até que sua perturbação desaparecesse e ela sorrisse novamente. Imaginei qual seria a sensação de abraçar seu corpo miúdo contra o meu. Deveria ser como pegar ao colo um animalzinho, mas melhor. A pele dela seria mais suave e agradável que pêlos, por mais macios que estes pudessem ser.

– É uma festa de boas vindas e não um jantar com sua família como pensei. – Disse como se isto explicasse tudo.

– E isto é um problema? – Não consegui entender seu raciocínio. Sentei-me em uma das cadeiras da mesa para me impedir de ir até ela.

– Não me saio muito bem com festas. Tenho problemas com sons altos e além disto… Não conheço ninguém além de Antônio. Ficarei perdida no meio de todo mundo.

– São pessoas boas, simpáticas, gentis. Você vai os adorar e eles a você. Tenho certeza. Eu conheço todos, ainda que não seja íntimo de ninguém. E também não gosto de festas e som alto. Se te serve de consolo também me sentirei um peixe fora d’água. – E não estava dizendo mentira alguma. Também não sabia que era uma festa ou não teria aceitado.

– É? – Parecia duvidar.

– É – Respondi. – Podemos ficar juntos dando apoio um ao outro. Assim que você achar que ficamos por tempo suficiente ou que está em seu limite com o som, invento uma desculpa para irmos embora. O que acha? – Até mesmo eu fiquei surpreso com minha proposta. De onde saiu isto? Vim ansioso apenas para terminar o mais rápido possível aquele contato, esperando acordar amanhã novamente dono de meu eu e esquecido desta garota. Por que agora estava favorecendo uma aproximação?

– Hummm… – Considerou por alguns segundos e então pareceu decidir, levantando-se. – Está bem então. Obrigada. – E sorriu aquele sorriso da porta. Sorri de volta, meio bobo, extasiado com a mudança que se operava em seu rosto quando sorria.

– Adriel? Começamos mal, não foi? Desculpe por aquele dia na praia e por hoje também. Podemos recomeçar? Sou Maise, muito prazer. – Estendeu-me a mão, ainda sorrindo.

– Adriel, encantado. – Peguei em sua mão, que era muito pequena na minha e levei-a até meus lábios em um cumprimento mais gentil. Ela pareceu gostar, pois ficou apenas um instante em silêncio antes de rir baixinho, retirando a mão e dizendo: – Vamos então?

Concordei e ainda com a sensação de sua pele quente em minha mão, segurei a porta para que passasse e ajudei-a a entrar em meu carro.

Texto registrado no Literar

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7) Bem estar

by A Itinerante - Neiva 23/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Acordei com o dia já claro. Foi bom dormir bastante. Todo aquele cansaço mental se fora. Estava tranqüila e bem. E com fome, muita fome!

Tomei um banho rápido, coloquei um biquíni por baixo de um short e uma regata e fui para a cozinha. Minhas habilidades culinárias eram próximas ao zero. Nem sei como me viraria de agora em diante sem os congelados salvadores da cidade. Felizmente café da manhã não era realmente um bicho de outro mundo. Troquei a toalha da mesa por aquela que comprara e preparei um desjejum farto e bonito que comi com gosto enquanto pensava sobre os últimos acontecimentos.

Hoje tudo parecia mais simples. Decidi que não valia a pena quebrar cabeça com asas que somente eu via. Melhor colocar na pastinha dos mistérios insolúveis e deixar lá até que tivesse oportunidade de esclarecer.

À noite jantaria com Antônio e esperava conhecer melhor o passado de meu pai. Lembrei-me do medalhão. O que significaria? Qual seria sua origem. Parecia uma jóia elaborada demais para ter sido confeccionada aqui. Teria meu pai encomendado em Colônia, a “cidade grande” mais próxima? Era uma possibilidade. Talvez Antônio soubesse algo. Teria que aguardar a noite. Resolvi começar a anotar as pistas que fosse reunindo, para não me perder no futuro.

Esta idéia levou às minhas necessidades imediatas e comecei a fazer uma lista de coisas a comprar. Uma TV, rádio ao menos, telefone. Internet? Acho que nem pensar. Talvez pelo celular, caso contrário só quando fosse à vila. Luminária. Humm… Bom mesmo seriam alguns móveis novos. Gastei bons minutos imaginando uma nova decoração. Desisti logo após. Ainda não sabia quanto tempo ficaria aqui e seria bobagem redecorar para depois abandonar.

Arrumei a cama, a cozinha, distribui todos os objetos que comprara e sorri ao final. Ainda era simples, mas estava simpático. Esquisito como me sentia em casa aqui, muito mais do que em qualquer outro lugar. Até mesmo o isolamento deixara de me incomodar tanto quanto na cidade. Não sabia por quanto tempo seria agradável viver assim, mas no momento estava bem contente.

Peguei uma toalha, um livro e fui para a praia, ansiosa por experimentar aquele mar transparente. O dia estava agradável, não muito quente e a água refrescante. Passei algum tempo caranguejando ao sol, indolentemente. Caminhei por toda sua extensão. Vislumbrei curiosa a casa do anjo. Com medo ser pega no flagra dei apenas uma espiada com o rabo dos olhos. Só deu para ver uma ponta da varanda de madeira.

Voltei com fome, comi um sanduíche frio e senti vontade de pintar a enseada. Ainda bem que trouxera todos meus materiais. Instalei-me de forma a abarcar uma parte do mar e outra do paredão vermelho, com a enseada e as pedras ao centro e não senti o tempo passar de tão envolta que fiquei. Quando percebi era por do sol já. Assustei-me ao ver que pintara o anjo em minha tela, sentado em uma das pedras. Mil vezes inferior ao original. “Será que ele posaria para mim algum dia?” – Fiquei brincando com a idéia enquanto guardava tudo e voltava para casa.

Tomei um banho rápido e feliz com a cor mais saudável de minha pele coloquei um vestidinho leve e uma sandália rasteirinha. De maquiagem apenas um baton cor de boca. Estava namorando minha imagem no espelho quando a campainha tocou, assustando-me.

“Quem pode ser? Ah! Antônio, certamente, veio me buscar. Que gentil!” – Abri a porta sorrindo.

Texto registrado no Literar

Imagem: encontrada na net sem os créditos de autoria.

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6) Tão humano!

by A Itinerante - Neiva 21/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Mais tarde decidi ir à vila ver se descobria algo sobre a jovem. Logo que cheguei vi que estava conversando com o proprietário do bar. Aguardei um pouco após sua saída e fui até lá. Disse que a tinha encontrado na praia de manhã sem entrar em detalhes e usando a desculpa da segurança para justificar minha curiosidade. Eles não desconfiavam que a clínica era uma fachada apenas.

Antônio contou o que sabia e pude ver que já gostava e se preocupava com a moça. Convidou-me para o jantar de boas vindas que daria a ela amanhã à noite e pediu o favor de trazê-la já que não conhecia a estrada o suficiente para dirigir a noite. Teria recusado normalmente, mas teria sido descortês e aceitei.

Não deixava de ser uma boa oportunidade de esclarecer minhas dúvidas. Depois me afastaria de vez deste convívio. “Só desta vez.” – Prometi a mim mesmo.

Estava abastecendo antes de voltar quando vi o jeep velho parar atrás do meu e a reconheci ao volante. Fechou os olhos com a cabeça apoiada no encosto como se estivesse cansada. Parecia muito frágil assim. Quando abriu os olhos demonstrou surpresa de me ver, mas não estava assustada como na praia. “Melhor assim.” – Pensei. Fiz um cumprimento com a cabeça e sorri amigavelmente.

Ela não retribuiu. Ao contrário, ficou muito vermelha e parecia não ter gostado. “Surpreendente.” – Ela sempre reagia de forma diferente da que eu esperava. “Porque corou?” – Mais uma interrogação para se juntar às outras.

Fui embora a imaginando sentada ao meu lado amanhã à noite, esclarecendo todas minhas dúvidas e ri. Duvidava que fosse mesmo tão prestativa.

“Como seria sua voz?” – Estava tentando imaginar ao me dar conta do quanto estava pensando nela e confuso, desta vez comigo mesmo, desviei os pensamentos.

Após o jantar, toquei um pouco de violoncelo. Não consegui nada sequer razoável e logo desisti. Li um pouco ouvindo uma música suave e quando estava mais relaxado fui para o quarto. Não tinha decidido se voltaria à praia amanhã. Por um lado tinha receio de encontrá-la no meu local novamente e por outro precisava urgentemente me energizar, já que não o fiz de manhã. Poderia ser em outro local, até mesmo em casa. Eu apenas gostava que fosse lá, vendo o amanhecer.

Levantei-me ainda no escuro e após me vestir decidi ir. Poucas pessoas tinham o hábito de acordar neste horário. Ontem deveria ter sido uma exceção para ela e esperava que hoje não fosse.

A praia estava vazia. Sentei em minha pedra e tudo era como sempre. Deveria estar satisfeito, mas então porque esta sensação de desapontamento e frustração?

“Isto está indo longe demais.” – Estas sensações novas me confundiam. Não entendia porque me ocupava tanto com uma humana, mas de qualquer forma não era bom. Desde o começo tive o propósito de não os envolver no projeto. Era perigoso e os apreciava demais para arriscar sua segurança.

Já fui um deles e nunca perdi completamente a ligação com o planeta. Por este motivo, quando tive que vir pensei que me adaptaria rapidamente. Não foi assim. Meus primeiros tempos foram difíceis. Sentia-me sufocar com a atmosfera pesada e densa e os hábitos foram difíceis de serem readquiridos. Comer, dormir, andar até que foram fáceis. Demorei mais para me acostumar com as roupas e sapatos são até hoje minha tortura!

Difícil mesmo foi a solidão. Durante o dia estava envolvido com nossas atividades e era fácil, o tempo correndo agilmente. As noites é que se arrastavam e faziam a casa parecia maior e mais silenciosa do que era.

Interessei-me então pela arte e cultura do planeta. Apesar de em outros planos serem muito mais avançadas e perfeitas, existia na produção daqui um valor, um sabor diferente – talvez justamente pelas imperfeições – que comecei a apreciar muito, principalmente a música. Aprendi a tocar alguns instrumentos. Minha preferência era o violoncelo, cujo som mais se aproximava da voz. Quando tocava, lia ou ouvia uma boa música as noites ficavam mais curtas e fáceis, mas jamais completas. Sentia falta dos meus irmãos anjos e a balbúrdia de suas vozes em minha mente. Gostaria que estivessem aqui.

Meu contato maior era com ex-anjos que renunciaram à imortalidade por um motivo ou outro e que agora trabalhavam no projeto. Não sei por que não houve aproximação maior com nenhum deles. Talvez por eu ainda ser um anjo.

Conversava mais com Tana, a fada que comandava a equipe de Seres Elementais responsáveis pela manutenção de minha casa e do complexo. Tana adotara-me como filho e tratava-me como um menino. Ela bem que gostaria que me aproximasse de alguma fada. Certamente era seu sonho. E delas também. Só não o meu. Por mais belas que fossem (e eram belíssimas), não me sentia atraído.

Em um mundo povoado com anjos, ex-anjos, humanos e seres elementais eu não era nenhum deles. Era único: um anjo vivendo como humano. Não me sentia entre iguais nem mesmo com estes.

Os aldeões eram pessoas simples, amáveis, boas, mas nenhum cativou minha atenção ou interesse. Até hoje. Até esta moça surgir e não conseguir parar de pensar nela, começando a ter estes sentimentos de curiosidade, confusão, desapontamento, frustração. Isto era tão… Humano! E desconfortável!

Texto registrado no Literar

Música: sensacional solo de violoncelo de Jacqueline du Pré interpretando Bach Cello Suite No.1 (I. Prelude & II. Allemande).

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5) Alucinação persistente

by A Itinerante - Neiva 18/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Minha cabeça parou de latejar aos poucos e quando terminaram a limpeza já não doía quase nada. Decidi ir com eles à vila comprar os mantimentos que faltavam e aproveitar para conversar com Antônio sobre meu pai, o verdadeiro motivo de minha presença aqui.

Foi confortante ver o sorriso alegre em seu rosto, mas não pudemos conversar direito porque o bar estava lotado com vários turistas que chegaram para a feira de artesanato dos sábados. Convidou-me para jantar em sua casa amanhã à noite e aceitei.

Ele milagrosamente me conseguira um jeep alugado, velho mas perfeito para aquelas estradas terroristas. Toda alegre fui passear um pouco antes de voltar para a cabana. Amava estas feirinhas e foi delicioso perceber que a maioria das que se espalhavam pela praça era de artesanato genuíno e não daquelas porcarias fabricadas aos montes que costumava ver na cidade.

Comprei uma toalha de tear, colorida e alegre para a mesa da cozinha, algumas plantas e flores, vasos, guardanapos, um sino dos ventos inacreditável de tão original e bonito, um capacho para a entrada onde estava escrito “Bem Vindo”. “Só falta um pingüim para a geladeira.” – Ri antes de ter minha atenção capturada pela barraca seguinte, de bijuterias locais.

Tinham o mesmo símbolo do medalhão pendurado no colar que minha mãe me dera quando fiz 18 anos, um sol de ouro com uma pequena fada em alto relevo ao centro. Uma pequena mola permitia abrir e, dentro, estavam fotos de nós três sorridentes e felizes no aniversário de meu pai. Meu coração apertou com a lembrança enquanto o tocava em meu peito.

Os da barraca não eram nem de ouro e nem tão bem feitos, como uma cópia mal acabada. Perguntei à senhora o que significava o desenho. Disse-me que era o símbolo de Portal do Sol, a cidade das Fadas. “Deve estar se referindo às mulheres locais, tão encantadoras e gentis.” – pensei. Ia lhe mostrar o meu colar quando vi o anjo. Estava conversando com Antônio. Observei confusa até que se despediram com amigáveis tapinhas nas costas.

“Ahmmmm?!?!? Conversando??? Tapinha nas costas??? De um anjo??? Da morte???” – Balancei a cabeça, abri e fechei os olhos para espantar a nova alucinação, mas continuei a o ver, agora de costas, com aquelas asas imensas e alvas caminhando entre as pessoas sem despertar qualquer atenção. Belisquei-me, doeu e continuei a ver as asas, diminuindo enquanto se afastava.

Voltei ao bar, com a desculpa da sede. Antes mesmo que pudesse pensar em um jeito de perguntar sem mostrar muito interesse, ele disse:

– Coincidência! Acabei de falar de você. – Como se não estivesse me corroendo de curiosidade, tomei um gole vagaroso de coca e só depois perguntei, desinteressadamente:

– É mesmo? Para quem? – Concentrei-me nas pessoas que passavam pela rua, como se estivesse absolutamente alheia à resposta.

– Adriel, o diretor da Clínica de Reabilitação. Não viu um moço bonito falando comigo quando estava vindo?

– Ah tá! Sei. – E agora? Perguntava sobre ele ou sobre o que falaram a meu respeito? Qual chamaria menos atenção?

– Parece que viu você na praia hoje de manhã e quis saber quem era. Medida de segurança, sabe? – Perguntou.

– Sei. – Não. Não sabia, mas dei corda.

– Um rapaz fantástico, Maise. Você vai ver. É seu vizinho. Tem uma casa na outra ponta da praia. Todos o admiram, embora não seja muito dado. Não é chegado a conversinhas, sabe? Mas precisa ver como cuida de tudo. Nunca tivemos um único problema com a clínica ou com os coitados que se internam lá. E parece que é tudo de graça. O tratamento, quero dizer. Um verdadeiro anjo. – Concluiu com admiração.

– Por falar em anjo, não tem algo diferente nele? – Perguntei, aproveitando a deixa. Quem sabe todos viam as asas e já tinham se acostumado.

– Porque é bonito demais, você quer dizer? As mulheres daqui estão perdidamente apaixonadas, mas ele nunca deu entrada para nenhuma delas. Vivem suspirando como antas. – Riu alto ao dizer isto.

– É mesmo? – Era demais para mim. Minha cabeça começou a rodar com tanta coisa para pensar ao mesmo tempo. Resolvi encerrar a conversa. – Vou indo, Antonio. Obrigada por tudo. Volto amanhã à noite então. Tchau.

– Qualquer coisa telefona, tá? Tchau. – E já voltava para seus clientes.

Queria voltar para a cabana. Não conseguia e nem queria mais pensar em nada que não fosse estar lá, naquele aconchego silencioso.

Antes de sair da vila, passei no posto para abastecer. Enquanto aguardava uma Cherokee ser abastecida à minha frente, encostei a cabeça no encosto do banco e fechei os olhos por alguns momentos. Quando os abri o anjo estava lá, falando com o atendente e pagando.

Neste exato momento pareceu me ver, inclinou a cabeça no mesmo cumprimento que fez na praia, seguido de um sorriso, entrou no carro e se foi.

“Oh, céus!” – Era diabólico de tão belo. Não poderia ser humano com um sorriso daqueles! Senti raiva dele. Parecia-me que estava zombando de minha confusão. – “Oras, que pegue suas asas e vá pular nuvens no céu!”

Estava mesmo mentalmente exausta quando cheguei à minha taperinha. Nem tive ânimo para distribuir a nova decoração. Embora estivéssemos ainda no final da tarde, coloquei um pijama e deitei-me, fechando os olhos e agradecendo à sonolência branca e tranqüila que invadiu minha mente rapidamente.

Texto registrado no Literar

Imagem: Feira de Artesanato em Vila Velha.

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4) Adriel

by A Itinerante - Neiva 16/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Aguardei na varanda que ficasse mais claro e a trilha íngreme que levava a praia estivesse visível. Desci então para minha caminhada até a pequena enseada.

Estava já há poucos metros quando vi uma mulher sentada em minha pedra habitual.

“Talvez uma turista.” – Cogitei, estranhando o inusitado da hora. Eles não costumavam enfrentar a estrada escura para estar aqui ao amanhecer e era por isto que gostava daquele horário.

Ao me aproximar vi que era jovem ainda, talvez uns 20 anos, cabelos curtos cacheados, cor de ouro velho. Ocupava metade do espaço que meu corpo na mesma pedra. “Pequena demais!” – Sorri com a comparação.

Não querendo assustá-la chutei algumas pequenas pedras para a água e o ruído mínimo foi suficiente para que se virasse em minha direção, com o olhar inicialmente vago e desfocado.

Um raio de sol tocou parte dos seus cabelos iluminando seu rosto o suficiente para que visse grandes olhos de um azul intenso, nariz pequeno e fino e boca rosada.

“Delicado e proporcional” – Pensei e notando também uma leve expressão de angústia, sorri simpaticamente para parecer inofensivo, fazendo um movimento discreto de cumprimento com a cabeça.

Acompanhei o despertar de seus olhos ao mesmo tempo em que a boca foi abrindo em uma reação de espanto e susto. Quando continuou a abrir de forma preocupante, perguntei-me se havia algo errado comigo. Olhei para meu corpo e aparentemente tudo estava certo. Calças jeans, camiseta clara e sandálias de couro. As asas estavam imateriais no momento. Nada errado, certamente.

Minha forma humana era de um homem alto, corpo bem modelado, com cerca de 30 anos. Era para ser considerado comum, mas em conjunto com meu rosto… Tentando tirar um pouco um pouco da “cara de anjo” que teria com nossos tradicionais cabelos dourados e encaracolados consegui fazer cabelos pretos, lisos e meio bagunçados, mas ao invés de ajudar, piorou, destacando meus olhos verdes e até a boca parecia maior e mais cheia do que já era.

“Realmente não foi uma boa idéia.” – Pensei, ainda que ela não parecesse surpreendida com minha aparência e sim assustada e até mesmo apavorada quando levou uma das mãos à boca emitindo um “ohhh”. Então se levantou apressada e saiu em corrida desabalada para a trilha, sumindo antes que tivesse condições sequer de me mexer.

Fiquei apenas com a recordação de seu corpo pequeno e ágil desaparecendo na trilha como um fantasma.

Sentei em minha pedra agora vazia, mas não consegui entrar em meu estado de concentração habitual. Não costumava prestar tanta atenção em humanos, não mais do que o necessário apenas, mas estava intrigado com ela. Quem seria? O que estaria fazendo aqui neste horário? Voltaria amanhã?

Esta questão preocupava mais que as outras. Necessitava deste ritual diurno e jamais seria capaz de me energizar corretamente na presença de humanos. Senti-me desconfortável com a possibilidade de perda de meu local até então exclusivo.

Gostaria de ir atrás dela e ter a resposta para minhas dúvidas, mas lembrei do quanto ficara assustada e achei que não seria uma boa idéia. Por que se assustou tanto?

Imerso nestes pensamentos, fiz o caminho de volta, alheio agora à beleza da paisagem.

Texto registrado no Literar.

Imagem: Eduardo Verastegui

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3) O anjo da morte

by A Itinerante - Neiva 13/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Acordei de madrugada em meio ao breu absoluto. Os ruídos apavorantes que ouvia tanto poderiam ser de animais lá fora quanto de monstros aqui dentro. Fechei os olhos em pânico, mas as batidas de meu coração eram ainda mais assustadoras. Lembrei-me que o interruptor estava ao lado da cabeceira e acendi a luz.

Mesmo depois de certificar que não havia nenhum monstro sequer embaixo da cama, fiquei ainda quase uma hora encolhida na cama sem coragem de levantar, ouvindo os sons lá fora e imaginando que espécie de feras selvagens habitavam o local.

Quando o escuro foi sendo substituído pela claridade resolvi deixar de ser covarde e levantar. Com muito cuidado para não levantar mais pó, retirei algumas roupas, toalhas e objetos de toalete de minha mala e após certificar que o banheiro era usável, agradavelmente surpresa com o jorro farto e quente do chuveiro, tomei um banho demorado. Coloquei um agasalho branco de moletom, meus tênis e retornei à sala.

Daria quase tudo o que tinha por um gole de café quentinho. Minha cabeça já latejava um pouco reclamando da ausência prolongada de cafeína, mas isto teria que esperar, conclui após examinar cuidadosamente os armários, impecavelmente cheios de pó e nada mais. Comi o resto de algumas bolachinhas que trouxera. Logo mais a mulher de Antônio chegaria com algumas provisões básicas e mais tarde eu iria à vila e compraria o que faltasse.

Pensando no que faria até que chegassem lembrei que a praia era muito próxima. De acordo com Antônio bastaria entrar à direita da casa em uma pequena trilha que me indicara. Segura com a manhã que despontava caminhei resoluta em sua direção. A trilha era apertada, mas rapidamente vi a areia.

À minha frente uma pequena enseada, ladeada por um paredão rochoso e pedras de vários tamanhos. Sentei-me em uma delas magnetizada pelo imenso sol que se despregava da linha do horizonte deixando um rastro dourado no mar.

Há muitos anos não via um amanhecer, mas este me parecia o mais belo de todos. O sol de um vermelho intenso tingia o cinza escuro do céu com seus reflexos alaranjados, parecendo engolir as partes ainda escuras e aos poucos ganhava áreas claras e ascendia mais e mais, com se emergindo das águas, quase todo agora.

A beleza do momento só era mesmo interrompida pela lembrança inoportuna da situação precária em que me encontrava, naquele casebre miserável e o latejar persistente de minha cabeça.

Café. – Lembrei, abrindo e fechando uma das mãos com a esperança de diminuir a tensão. Um pequeno ruído me fez olhar automaticamente para a esquerda em direção à praia.

Meus olhos demoraram a entender o que estava vendo e enviar a mensagem correta para o cérebro, pois em minha direção vinha caminhando um anjo. Lindo, divino e resplandecente, mas ainda assim um anjo, com enormes asas brancas. Ele sorria.

“Ah, meu Deus!!! Por isto estava achando tudo tão bonito. Não era real. Morri à noite e já estou “do outro lado”! E agora este anjo está vindo para me dar as boas novas.” – Gelei de terror. Eu não queria ouvir. Tinha muito a viver ainda!

“Ohhhh” – O som saiu de minha boca sem que eu pudesse impedir, mas me descongelou e pulei, fugindo desesperada de volta a trilha, com o coração saindo à boca. Corri cegamente pela trilha até encontrar a saída que dava em minha cabana, avistando a porta que me salvaria.

“Idiota, é lógico que portas não impedem anjos de entrar em algum lugar.” – Imediatamente perdi as esperanças e parei novamente indecisa. Deveria correr para a vila?

Foi quando vi um carro velho parado e duas pessoas encostadas nele. A esposa de Antônio e seu ajudante.

“Se tiver morrido mesmo eles não me verão, certo? Hora de testar a teoria.” – Dei meu melhor sorriso ao parar em frente aos dois e desejar bom dia. Eles responderam também com sorrisos.

“Certo. Não estou morta. Ainda! Então ele está vindo me buscar. É um Anjo da Morte!” – Conclui chocada. Não tinha outra explicação. Enquanto íamos em direção à porta olhei rapidamente para a entrada da trilha, mas não o vi. Estava salva por enquanto?

Marta, a esposa de Antônio, falava pelos cotovelos, com os braços cheios de pacotes de supermercado, vassouras, panos e baldes. E eu concordava com tudo o que dizia, sem ouvir realmente enquanto buscava por uma solução. Nem cogitei em lhes falar sobre o ocorrido. Não queria ser internada. Imaginei suas expressões de tristeza ao contar a estória, balançando a cabeça e dizendo: “Louca, a pobrezinha”.

Após o que pareceu uma eternidade, a intenção de cozinha estava limpa e pude fazer um café. Tomei na varanda, deixando-a terminar a limpeza e observando o rapaz com a enxada limpando a entrada tentei raciocinar friamente sobre o ocorrido.

Conclui que estava com o emocional abalado pelo stress dos últimos dias e tive uma alucinação. Não tinha realmente nenhum anjo na praia, muito menos querendo anunciar minha morte.

“Desde quando anjos usavam calças jeans e camisetas?” – Sorri de minha idiotice e absurdamente feliz por não estar condenada e nem louca, revi a imagem em minha mente.

“Como era lindo! Uau! Se voltasse a ter outra alucinação com ele, agora que já sabia do que se tratava, talvez não fugisse. Quem sabe?” – Ri com meus pensamentos e o ajudante olhou-me curioso.

Texto registrado no Literar

Imagem: autoria de Rogério Maciel

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2) Portal do Sol

by A Itinerante - Neiva 11/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Dois dias depois cheguei a Portal do Sol, completamente exausta e amassada depois de ser chacoalhada por horas dentro de um ônibus velho, que me deixou apreensiva de verdade percorrendo a estrada de terra esburacada a uma velocidade impossível.

A Estação Rodoviária era uma casa simples, com uma porta, um balcão, um funcionário sonolento e um banheiro que não quis testar apesar da vontade de passar uma água no rosto e um pente nos cabelos.

Perguntei pelo Antonio e o atendente indicou-me um bar do outro lado da rua. Apesar do cansaço notei que a rua principal da vila até que tinha seu charme, com vários pequenos negócios ao longo de uma praça bem florida ladeada em ambos os lados por igrejas.

“Seriam católicas ambas ou tínhamos aqui uma divergência religiosa a dividir os aldeões?” – Pensei divertida.

No bar, Antônio era um senhor de pele curtida do sol, sorriso largo e aberto. Abraçou-me em seu corpo farto como se fosse uma amiga de infância que não visse há anos e extremamente constrangida, sem saber o que fazer, apenas me deixei abraçar.

Quando consegui falar pedi que me levasse à cabana explicando estar muito cansada. Parecendo ter entendido gritou algo para o menino nos fundos, pegou seu chapéu e saímos em direção a uma caminhonete parda estacionada à frente do bar.

O trajeto de poucos minutos foi feito enquanto ele contava todas as maravilhas do lugar e de como gostaria da cabana, mas quando chegamos apenas não voltei imediatamente por estar no limite das forças.

Ela parecia mesmo abandonada por 20 anos, com mato invadindo a pequena varanda e muitos entulhos ao seu redor. A porta meio travada enfim abriu-se com um empurrão de ombros e ao o fazer levantou uma onda de poeira que me cegou temporariamente.

– Ah, meu Deus! – exclamei aturdida. – Antonio, o que é isto? Ela não está em condições de ser habitada por um ser humano.

– Desculpe querida. Limpo de vez em quando e ia fazer isto amanhã. Não pensei que viria tão rápido, mas não se preocupe que enviarei uma pessoa para limpar tudo para você. Verá como é linda depois de arrumada. Quer ficar em minha casa enquanto isto? – Ele pareceu realmente constrangido e estava tão cansada que não me imaginava passando a noite com desconhecidos, por mais amáveis que fossem. Então apenas recusei com um agradecimento.

Combinamos que na primeira hora da manhã sua esposa e um ajudante viriam para limpar por dentro e por fora e também me trariam mantimentos. E depois de testar água e luz, ele se foi. Sentei-me na mala e olhei desanimada para meu novo lar nas próximas semanas.

“Talvez fique melhor amanhã” – Pensei tentando ser otimista e observei o grande ambiente sem divisões que comportava um arremedo de cozinha composto de pia, fogão, mini geladeira e um armário velho de madeira. À frente uma mesa pequena, coberta por um plástico xadrez e duas cadeiras desiguais. Nos fundos em um patamar pouco mais elevado, uma cama de casal, outra pequena mesa com cadeira, vagamente parecida com uma penteadeira e um velho guarda-roupas.

– Oh oh… Isto não está bem, nada bem. – Falei com voz alta. – Também quem mandou vir sem antes verificar se estava habitável realmente? É o que você merece Maise, por ser assim imprudente.

– Ok, ok… Mais uma culpa para se juntar ao meu pote já grande e transbordante. Talvez devesse mesmo comprar um chicote para me punir. – Retruquei em minha própria defesa, contra a autocrítica, pelo bem de meu humor já bem ruim a esta altura.

Tirei um jogo de lençóis de minha mala, estendi-os da melhor forma que pude e desabei de roupas e tudo apenas para descansar alguns minutos.

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1) Maise

by A Itinerante - Neiva 09/05/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva


Olhei a escritura tentando entender seu significado. Estava em nome de meu pai e dizia respeito a uma cabana e algumas poucas terras próximas a uma praia em um local chamado Portal do Sol, do qual nunca ouvira falar e nem mesmo me recordo dele ou de minha mãe terem mencionado. A data da escritura era de dois anos antes de meu nascimento.

“Porque meu pai, que odiava o litoral, teria uma casa na praia???” – Busquei novamente entre a pilha de papéis por alguma outra informação que esclarecesse, mas nada. Nem uma foto, nenhuma menção, nada! Apenas aquela escritura, um telefone e um nome anotados no verso.

“Papai nunca falou de algum Antonio. Esquisito demais.” – Pensei, sentindo um tênue rastro de esperança nascer.

“Talvez, mas só talvez, neste local alguém ainda se lembre dele e consiga mais informações sobre seu passado. Talvez…” – Interrompi o pensamento antes mesmo que formasse, não me permitindo criar ilusões quanto ao encontro de algum parente.

Meus pais faleceram juntos em um acidente de carro há alguns meses. Sempre vivemos sós e não conhecia qualquer parente. Papai dizia que seus pais tinham falecido e que perdera contato com o restante da família. Mamãe alegava que tinha mãe, tios e primos distantes, mas que não se davam bem e como parecia incomodada com o assunto não insistia, também porque nunca senti falta de mais alguém. Nós éramos unidos como jamais vi em outras famílias. Meus colegas de escola reclamavam dos irmãos, dos pais, de todos. Sem contar os que tinham pais separados, cada dia em maior número. Considerava-me quase que injustamente feliz demais e sentia até vergonha de não ter nada a reclamar. Parecia que estava deslocada naquela sociedade infeliz e vez por outra pegava uma coisinha minúscula qualquer, aumentava bastante e colocava para fora, igualando-me então.

Era uma aparência apenas. No fundo sabia que estava deslocada mesmo, que não pertencia a eles ou eles a mim. Não sabia se por este motivo ou por outro qualquer, mas o fato é que nunca tive amigos íntimos ou pertenci a um grupo como todos eles. Não me importava realmente. Meus pais e eu fazíamos muitas atividades em conjunto, eles tinham muitos amigos, nossa casa vivia cheia e meu tempo era totalmente preenchido.

“Bem, agora me importava.” – Pensei. Desde que faleceram estive só, exceto pelos advogados e os amigos de meus pais e mesmo eles foram embora depois que tudo terminou. Apenas um ou outro ainda telefonava vez por outra, convidando para sair, almoçar, jantar, visitar e coisas assim, mas eu desejava – precisava – tanto da companhia humana que as recusava, envergonhada desta necessidade, temerosa de que a enxergassem em meus olhos ou em alguma atitude que tomasse. Não queria piedade, ou compaixão. Queria um abraço sincero, amigo, cheio de amor, como os que minha mãe me dava quase todos os dias, ou meu pai quando voltava de alguma pequena viagem.

Esforcei-me para retomar a vida normalmente e concentrei-me na faculdade. Tinha 20 anos e estava no 2º ano de Artes Plásticas, minha paixão. Não que fosse realmente brilhante ou tivesse algum talento incomum. Papai sim tinha talento. Estava começando a ser famoso, mas seus quadros já eram muito bem valorizados. Eu apenas tinha esta compulsão por desenho e pintura. Gostava de me expressar desta forma. Talvez, pensava, de tanto tentar um dia acabasse por produzir algo digno de nota.

Agora, entretanto, estávamos nas férias letivas, tinha dois meses vazios pela frente e nem a menor idéia de como os preencher. Estava cansada de ficar em casa, só. Talvez uma viagem, pensava. E o litoral era mesmo uma tentação. Tinha ido algumas vezes com minha mãe, já que meu pai se recusava a nos acompanhar, mas eram sempre viagens rápidas. Eles não gostavam realmente de estarem distantes um do outro por muito tempo.

Sem estar ainda totalmente decidida, resolvi arrumar os papéis deles antes, com esta vaga esperança de encontrar algo, uma pista a seguir, que me levasse ao encontro de parentes vivos. Após horas olhando documentos, extratos bancários, certificados e todo tipo de papel burocrático, encontrara aquela escritura junta à de nossa casa.

Em um súbito ataque de covardia hesitei, guardando tudo antes de discar o número do tal Antonio, sem saber muito bem o que dizer ou o que esperar.

O próprio Antonio atendeu e expliquei rapidamente a situação. Para minha surpresa, não apenas lembrava-se de meu pai, como pareceu bem chateado quando contei sobre seu falecimento. Ele confirmou que a cabana ainda existia e que era de meu pai, realmente. Falou-me um pouco sobre isto.

Parece que meu pai morou lá por um ano e que Antonio e ele eram amigos. Que meu pai decidira ir embora de um dia para o outro, sem muita explicação e que apenas lhe solicitara o favor de cuidar de vez em quando do local até que decidisse o que fazer. Como nunca mais teve qualquer notícia, continuou cuidando e esperando.

“Ele deve mesmo ter gostado de papai! São mais de 20 anos sem notícias!” – Conclui em pensamentos.

– Estou indo aí, passar uns dias e aproveitar para conversarmos melhor. Então vejo o que fazer com ela. Tudo bem?- Ouvi surpresa minha própria voz dizer isto.

– Lógico, querida, será um prazer conhecer a filha de Artur. – Disse com voz realmente calorosa e meus olhos instantaneamente ficaram úmidos. – “Idiota sentimental!”- Pensei recriminando-me.

Desliguei o telefone, ainda meio aturdida com as novidades e a decisão que tomara por impulso. Ao fim, isto era algo. Poderia não dar em nada, mas ao menos preencheria parte de meus dois meses de vazio.

Portal do Sol! – Disse em voz alta. O nome soava bem e queria já estar lá.

Texto registrado no Literar

09/05/2009 0 comment
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