A Itinerante
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Adriel

20) Desejo

by A Itinerante - Neiva 20/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Uma semana passou vertiginosamente sem que eu percebesse. Os dias corriam rápido demais desde aquele dia em que acordei na casa de Adriel e que ele declarou-se, desajeitado e confuso.

Levou-me para conhecer sua casa. A decoração era composta por móveis contemporâneos mesclados com uma ou outra peça mineira antiga. Pouco vidro e plástico, sem linhas retas, muitas curvas, criando um ambiente aconchegante e acolhedor.

Fiquei surpresa por encontrar alguns móveis clássicos do design mobiliário brasileiro, como a Mole de Sérgio Rodrigues e alguns exemplares dos Irmãos Campana, os gurus dos materiais inusitados. Como estudante de arte não apenas conhecia como acompanhava com devoção esta forma de arte. Comentei que dos móveis deles que admiro só faltou mesmo a poltrona de ursinhos de pelúcia que era minha paixão. Ele riu e disse que não combinava muito com sua reputação. Tive que concordar aos risos.

Não bastassem os móveis, a casa era repleta de arte, em sua maior parte contemporânea ou moderna e artesanatos que eram arte de tão perfeitos. Nos quadros parece que o único critério era o colorido e a vivacidade. Na sala imensa, com vários ambientes, uma parede inteira, de fora a fora, do chão ao teto de prateleiras com livros de literatura, arte, biografias, ficção e história. Em outro canto, uma TV imensa em frente a sofás macios e imensos. Dava vontade de pular em cima e dormir o dia inteiro neles. Ao lado da TV, o aparelho de som e uma coleção infinita de discos de música e cinema de todos os gêneros.

A arquitetura era estupenda, toda em madeira e alvenaria, com uma varanda gigantesca com piscina e vista para o mar. Poderia apostar que era tudo ecologicamente correto e nada parecia barato, o que me deixou levemente divertida. Jamais imaginaria um anjo endinheirado e amante do luxo. Quando comentei o que parecia ser um contra-senso, argumentou que o dinheiro somente tinha importância para os humanos, porque a forma de lidar com sua falta ou excesso era utilizada para nosso aprendizado e evolução, que para anjos era assunto irrelevante e não via sentido em se privar de conforto e prazer com objetos de arte, uma bela casa ou o que quer que deseje materialmente, já estando privado de muitos outros prazeres e confortos pelo simples fato de viver na terra como se fosse humano, não o sendo.

– Olhando por este lado… Até que faz sentido. – Tive que reconhecer. De qualquer forma, sendo coerente ou não, inegavelmente era a casa dos sonhos de qualquer humano.


Ele não me deixou ir embora antes do almoço, que foi soberbo. Tana ficou com um sorriso de orelha a orelha ao meu elogio e fui praticamente convocada para o jantar. Depois disto, tornou-se um hábito de todas as noites. Os almoços quase sempre eram na minha cabana. Tana estava dando-me aulas de culinária e Adriel fez jus à sua condição angelical ao servir de cobaia para minhas aventuras gastronômicas, sempre com a mesma expressão de prazer e felicidade, mesmo que a comida estivesse intragável até para meu paladar. Estava melhorando graças a seu incrível apoio moral.

Acordava cedo todos os dias, escuro ainda, para ver o nascer do sol com Adriel. Ele via, aliás. Eu via apenas ele enquanto o pintava. Era o momento predileto do dia porque podia me deliciar observando-o sem acanhamento e não cansava disto. Minha pintura evoluía muito, mas estava ainda insatisfeita. Por mais que tentasse não conseguia transpor para a tela toda beleza daquele homem-anjo.

Quando o sol ficava muito quente voltava para casa enquanto ele ia trabalhar. Não me falava muito, aliás, quase nada, sobre seu trabalho, o que não me incomodava. Embora tivesse certa curiosidade, estava tão feliz com os momentos que tínhamos que não queria desperdiçar com algo que não o agradava. Eu o queria alegre, porque quando sorria meu coração quase parava de tanto prazer.

Invariavelmente ao voltar para a cabana ela estava limpa e arrumada, as roupas sujas tinham sumido e as que tinham sumido dias antes estavam lavadas, passadas e arrumadas no guarda-roupas. Não importava o quão hermeticamente tivesse fechado ao sair, Tana sempre conseguia entrar. Pedi-lhe milhões de vezes para parar de fazer as minhas tarefas. Ela sempre balançava a cabeça concordando e no outro dia fazia tudo igual. Nós discutimos feio ontem. Disse o quanto me desagradava, que me fazia sentir uma inútil e exploradora da boa vontade alheia. Tana chorou e falou, falou, falou. Ao final além de inútil e exploradora, era também uma malvada desumana que negava a uma velha e pobre criatura o prazer de cuidar de sua menina.

Tana adotara-me como antes tinha adotado Adriel. Éramos seu menino e sua menina e tratava-nos como a duas crianças, dando ordens, conduzindo e organizando nossas vidas com regras e horários. Adriel parecia divertido ao ver-me tentando desobedecer a algumas destas regras. Disse que já tinha desistido há anos e que Tana era impossível, nunca aceitando um “Não” como resposta e contou-me que a grande frustração dela era não ter tido filhos e que só a faria feliz aceitando seu carinho. Acabei desistindo de dar murros em ponta de faca e relaxei, deixando-a mimar-me e cuidar-me como se fosse mesmo sua filha.

Após o almoço, se Adriel estivesse livre, ficávamos um pouco na praia e o restante do tempo em sua casa. Mesmo quando ele estava trabalhando eu ficava por lá. Aboletava-me na Mole, que já considerava minha e lia os diários de meu pai.

Estava conseguindo ler cerca de um por dia. Nos três primeiros não havia muita coisa a ser dita. Ele estava obcecado pela luz de Portal e por uma nova técnica de pintura e seu assunto quase sempre era este, com observações sobre estudos, pintura, horários, etc…

No quarto livro narra um acidente quando estava visitando uma área nova e cai em uma depressão da terra que não havia percebido. Machucado e com o pé quebrado ou torcido, não consegue sair sozinho. Começa a chamar por socorro sem esperanças, por saber que o local não é habitado, mas uma jovem aparece e o ajuda a sair e a retornar para a cabana.

O quinto livro é todo dedicado a ela, que o ajuda a comer e se manter enquanto não pode andar. Embora vá embora aos finais de cada tarde, retorna cedo na manhã seguinte e passa os dias com ele. Meu pai está absurdamente apaixonado e mesmo recuperado finge não estar com receio de que ela pare de visitá-lo. Segundo seus relatos, a moça é belíssima. E pela descrição não tenho dúvidas de que era minha mãe.

No sexto livro, meu pai se consome de angústia, por ainda não saber quem ela é e por estar perdidamente apaixonado. Minha mãe corresponde, mas existe um impedimento para ficarem juntos: ela é comprometida com outra pessoa e meu pai não entende o que a impede de romper este compromisso, já que o ama tanto quanto ele a ama.

No sétimo livro, que acabei de ler hoje, eles passam as tardes se amando na cabana. Ainda assim ela insiste não poder desfazer seu noivado com o outro e não revela a meu pai nada mais. Ele não sabe onde mora e nem mesmo com quem vive. Aparentemente é uma jovem rica, pelo vestuário e modos sempre impecáveis. Mamãe não quer contar mais sobre sua vida e diz que não pode romper por ser um compromisso moral e que deve se casar não apenas por sua família como por seu povo. Papai não entende e não aceita. Tem ciúmes do noivo que sequer conhece. Quer se casar com mamãe e a levar para outra cidade, distante deste rival invisível e poderoso. Mamãe se recusa. Eles brigam feio e ela vai embora dizendo que não voltará.

Estou agônica para ler o oitavo livro e saber o que acontece depois, mas hoje não será possível. Estamos quase no final da tarde e preparamos uma surpresa para Adriel. Ele saiu cedo para algum trabalho que tinha que fazer em outra cidade. Vamos ter uma noite romântica com jantar à luz de velas. Foi idéia de Tana, cúmplice e parceira no projeto de sedução de Adriel.

Ele e eu encaixamos um no outro perfeitamente. É como se tivesse sempre feito parte de mim, como se já estivesse ali dentro desde sempre. Penso que para ele é igual, porque também me vejo encaixada nele de forma natural. Não temos resistência para a entrada do outro. Não é como se fôssemos um, porque somos diferentes. Nem como se fôssemos duas metades que se completam, porque isto seria dizer que somos incompletos sem o outro e não é verdade. É apenas que somos melhores e mais felizes juntos.

Nunca pareceu estranho a rapidez com que nos envolvemos. Estranho é como vejo minha vida anterior, sem ele. Felizmente antes não sabia como poderia ser melhor ou não teria conseguido viver todos estes anos. Espero apenas nunca mais ter que viver sem ele. Não creio que seria possível.

Nas poucas horas em que nos distanciamos um do outro, fico agitada e tensa e parece que a vida fica em pausa até que estejamos juntos novamente e só então ela recomeça a acontecer.

Não tenho dúvidas de que Adriel sente o mesmo por mim. Vejo no seu olhar, nos seus gestos, na forma como está sempre me buscando e tocando ou como seu rosto se ilumina quando nos reencontramos após cada separação, mesmo que mínima.

Apesar desta certeza e de estar sempre me tocando, com os mais variados pretextos, nunca me beijou. Ele nem sequer me abraça realmente, como desejo que abrace. Impõe entre nós um distanciamento físico, uma impossibilidade de um toque mais demorado e intenso e nem sei por que.

Não que seja a mulher mais experiente do mundo, mas sou bem informada o suficiente para saber o que papai e mamãe fizeram para que eu viesse ao mundo. Além disto, tive alguns namoricos na escola e faculdade. Bom, alguns não. Dois para ser sincera. Não passamos do primeiro beijo e isto porque senti nojo em ambos os beijos, mas tenho certeza de que com ele seria diferente, delicioso e mágico. Daria tudo por um beijo de Adriel.

Li uma vez que quando estamos amando tocar o corpo do outro é uma forma de tocar a alma do ser amado e é isto que quero experimentar. Quero amar a alma de Adriel através de seu corpo. Quero que ele sinta o quanto é adorado e venerado através de meus carinhos e beijos e quero que ele me ame da mesma forma. Saber que me ama não é suficiente. Quero sentir seu afeto me tocando, saindo dele e entrando em mim, o mesmo tanto que quero que saia de mim e entre dentro dele e ali permaneça. É uma vontade de posse, misturada com um desejo de estar no outro de uma forma mais permanente ou mais física, não sei bem.

Este desejo é novo para mim. Quando lia romances fantasiava sobre como seria, mas não imaginava que fosse tão desesperador e imperativo como é. Esta ânsia, esta vontade enlouquecedora que me invade em qualquer hora do dia, que me faz sonhar com ele todas as noites e acordar sem fôlego, que me deixa com a boca seca, com o estômago em ruínas e as pernas adormecidas quando estou ao seu lado, perto demais e penso que bastaria um movimento para o tocar como gostaria, apesar de ainda não ter tido coragem suficiente.

É por isto que Tana e eu armamos este jantar. Ela me presenteou com um vestido inacreditavelmente lindo, feito de uma seda muito fina e delicada, azul praticamente da mesma cor de meus olhos. Romântico e sensual demais, embora aparentemente seja singelo e inofensivo, Ele nem vai saber o que exatamente o atingiu e antes mesmo de perceber estará me beijando.

Esta noite Adriel será meu.

Texto registrado no Literar.

Imagem: casa de Adriel encontrada aqui.

Sérgio Rodrigues (1927), é carioca. Arquiteto, tornou-se um grande designer de móveis e foi pioneiro em tornar o design nacional conhecido mundialmente com uma linguagem própria e bem brasileira. Sua Poltrona Mole ganhou o primeiro lugar no Concurso Internacional do Móvel em 1 964.

Os Irmãos Campanas são uma referência do design brasileiro, têm móveis expostos no MoMa, utilizam em seus móveis materiais pouco comuns estimulando a reciclagem e suas peças sempre remetem às origens brasileiras.

20/06/2009 0 comment
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19) A Rainha dos Povos Encantados

by A Itinerante - Neiva 18/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

(narrador)

Saindo da casa de Adriel, Tana seguiu para as árvores na lateral da casa e após poucos minutos chegou ao portal que dava entrada à Etera, o reino dos povos encantados. Atravessou-o rapidamente, saindo na estrada principal. Passou pela Vila dos Gnomos, com pequenas casas entremeadas nas árvores e pela minúscula Cidade das Fadas construída em flores e plantas, chegando ao Lago das Ondinas. Nem esperou pelo barco-cisne e voou até o centro, uma pequena ilhota onde estava o Castelo de Etera.

Eileen estava na sala do trono ao lado do Príncipe Elros e vários membros da Corte dos Encantados e viu a fada Tana entrar apressada, pedir uma audiência privada à Fada-Rainha Selena e quando esta aquiesceu, retirarem-se para a câmara particular. Ficou alheia ao burburinho que se instalou, com várias conjecturas do motivo da conversa. Ela bem podia imaginar qual o assunto.

“Anjo intrometido e fada fofoqueira!” – Murmurou entredentes, mas não tão baixo. Elros, seu noivo elfo e o principal conselheiro da Rainha perguntou o que tinha dito.

– Disse que preciso ir ao toalete, amor. Com licença. – E saiu na direção do mesmo, ao lado da câmara onde ambas estavam.

No corredor, colou-se à parede tentando – sem sucesso – ouvir algo.

– Droga! Preciso saber o que falam! Será que já sabem que fui eu? – Exclamou exasperada antes de se transformar em uma pequena formiga e passar por debaixo da porta.

“Precisamos saber…”, “Elros?”, “Guardar segredo…”, foi ouvindo trechos e palavras soltas até se aproximar o suficiente para ouvir integralmente o que diziam.

– Enquanto não soubermos de tudo, isto deve ficar entre nós. – Concluía a Rainha, prosseguindo logo após. – Infelizmente tenho que concordar com Adriel. Por mais que a deseje ver e contar tudo, não posso correr o risco de um passo em falso e prefiro aguardar uma ou duas semanas para que esteja tranqüila e mais adaptada às situações que têm encontrado aqui. Também é um tempo importante para que consigamos identificar quem está tentando a matar e por que.

– Mas, Rainha Selena, ela estará correndo perigo neste tempo. Quanto antes contarmos e ela vier para Etera, mais rápido ficará segura. – Considerou Tana.

– Não, querida. Não vou me arriscar. Não posso perdê-la. Faremos tudo calmamente. Com relação à sua segurança, tranqüilize-se. Estará sob vigilância e proteção constante de nossa guarda.

– Dos Elfos, Majestade? E se eles estiverem envolvidos?

– Dos Gnomos. Não tenho dúvidas quanto à fidelidade de Gnom Knur. Falarei com ele em seguida à nossa conversa e ela não ficará desprotegida nem mais um dia. Não quero dizer com isto que desconfie de Elros. Ao contrário. Apesar de aparentemente ser o único com motivos para não gostar de Maise ou de ter vantagens com sua morte, já deu provas inquestionáveis de sua lealdade. Foi sim o maior prejudicado com o que aconteceu naquela época, mas procurei o recompensar por outras formas e hoje é meu braço direito, substituto e sucessor. Além disto, está noivo de Eileen, que considero como uma filha. Não posso crer que nutra algum ressentimento.

– Sim. Também confio em Elros, mas como Maise aparentemente foi atacada por um elfo, faz bem em manter este assunto em outras esferas. Bem pensado, minha Rainha.

– Então vá, preciosa amiga. Agradeço demais por ter vindo me informar. Você sabe o quanto este assunto é importante. Não esquecerei sua lealdade. Obrigada. Agora vá. Procure saber toda a verdade sobre Maise e traga-me relatórios constantes.

– Com sua licença. – Após fazer uma breve reverência, Tana saiu. Eileen continuou observando. A Rainha bateu levemente o cetro no chão e um oficial de ordens surgiu à porta.

– Chame Gnom Knur.

Após a saída deste, aguardou planando quase imóvel no ar. Sua figura de pouco mais de 12 centímetros parecia maior nas conferências com os súditos, quando o conjunto formado pela pose majestosa, as ricas vestes invariavelmente brancas, a face idosa que exteriorizava sabedoria e experiência e a aura dourada que sempre a envolvia compunham imagem de tal poder que parecia maior até mesmo que os elfos, os maiores membros do reino encantado, com cerca de 1:20 mts.

Neste momento, porém, perdida em pensamentos, com as mãos fechadas próxima ao coração e a cabeça baixa, surgia em sua estatura real, pequena e frágil. Uma lágrima solitária seguiu-se a longo suspiro, sendo enxugada ao mesmo tempo em que a porta abriu-se novamente e um pequeno gnomo entrou.

Gnom Knur aparentava uns 50 anos, tinha barba branca, longa e pontuda e vestia-se rudemente com botas, calças escuras e uma bata esverdeada presa à cintura. Tinha a postura ereta e o caminhar firme típico de quem foi educado com disciplina. O olhar caloroso, entretanto abrandava a rigidez da forma e o conjunto inspirava confiança e força.

O gnomo tinha quase 40 centímetros, mas como ela planava na altura de seu rosto, podiam se olhar e falar em igualdade.

– Majestade. – Disse ao fazer uma reverência.

– Gnom, meu amigo. Preciso de sua ajuda para um assunto muito importante. Não posso explicar os motivos deste pedido, mas sei que posso confiar em você tanto para a execução da tarefa quanto para mantê-la sob o mais absoluto sigilo de todo o povo encantado, exceto aqueles que estarão envolvidos.

– Às suas ordens, Majestade.

– Uma jovem humana que chegou recentemente a Portal do Sol e que está residindo na cabana abandonada precisa ser protegida 24 horas por dia. Tenho motivos para crer que corre risco de vida, de que alguém deseja sua morte. Quero que a vigie e proteja. Nenhum mal deve lhe acontecer enquanto residir naquele local e não estiver aqui sob minha proteção. Isto deve ocorrer dentro de uma ou duas semanas. Crê que vocês e os seus a possam proteger?

– Nada ocorrerá com a jovem, minha Rainha, fique tranqüila. Colocarei meus melhores homens, altamente treinados e completamente armados em turnos constantes acompanhando-a por onde quer que vá.

– Muito bem. Devo acrescentar que ela não poderá sequer suspeitar desta guarda. Em nenhum momento deverá visualizar algum de vocês. Creio que isto não será difícil sendo vocês tão hábeis nas artes do disfarce e camuflagem.

– Tem minha palavra de que não apenas a jovem estará segura como não perceberá nossa guarda. E todos portarão silvos mágicos para chamarem ajuda imediata caso haja necessidade.

– Obrigada. Sua ajuda e fidelidade serão recompensadas. – Despediu-o com um gesto de mãos, a que ele retribuiu com nova reverência e partiu. A Rainha logo o seguiu, retornando à sala do trono.

Sozinha no aposento, Eileen retomou sua aparência e tamanho normais.

– Ela tem que morrer! Agora mais do que nunca! Estava tão certa de sua queda da árvore que mostrei minha forma verdadeira. Se vier a Etera me reconhecerá imediatamente. Não posso permitir. Maldito anjo! Tinha que aparecer naquela hora! – Sentou-se em uma cadeira enquanto falava e ao fim tapou o rosto com as mãos em desespero.

– E agora? Como farei com esses anões estúpidos a rodeando? Sem contar o anjo babão, lógico. Pense, Eileen, pense!!!

Texto registrado no Literar.

Imagem do Castelo da Rainha daqui.

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18) Declaração

by A Itinerante - Neiva 15/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Cheguei à cozinha quando Tana já estava com a mão na maçaneta da porta de saída.

– Aonde vai?

– Ai, menino! Já não disse para não me assustar deste jeito, andando assim silenciosamente?

– Não mude de assunto, Tana. O que sabe sobre o medalhão e onde está indo apressada deste jeito?

– Não sei de nada sobre ele. Só achei bonito. E estou indo… – Parou por um segundo procurando uma desculpa satisfatória, mas a conhecia bem demais para me deixar enganar. Ela não sabia mentir direito.

– Não sairá daqui enquanto não me contar tudo. – Postei-me em frente a porta.

– Adriel, menino, sabe que não faria nada ruim, não é? Não quero te contar porque ainda não tenho certeza. É isto que estou indo verificar. Deixe-me ir e na volta contarei tudo.

– Contar o quê?

– Acho que aquele medalhão pode ser o que a Rainha aguarda há mais de 20 anos. Preciso contar a ela. E também sobre a tentativa de assassinato da menina. Ouvi quando te falou. Parece ser um dos nossos. Cabelos brancos e orelhas pontudas são características dos elfos, mas não entendo. Qualquer Elfo de Luz ficaria feliz com o retorno do medalhão e protegeria seu portador. Só se for um Elfo Negro. Mas, que motivo teriam para tanto? Se quisessem o medalhão poderiam simplesmente furtar. Não seria necessário matá-la. Não faz sentido.

– Você promete voltar imediatamente e me contar tudo?

– Prometo. E enquanto isto mantenha a menina sob seus olhos. Não a deixe voltar para a tapera sozinha em nenhuma hipótese. Se for o que estou pensando a Rainha vai querer a ver imediatamente.

– Nem pensar, Tana. Maise passou por muita coisa nos últimos dias. Ela precisa de um tempo. Seja lá o que estiver acontecendo, diga isto à Rainha. Não permitirei que seja perturbada até estar totalmente recuperada e descansada. Uma visita à Etera está fora de questão pelas próximas semanas. – Ela me olhou de cima abaixo, querendo discutir, mas aparentemente sua pressa em ir até a Rainha venceu.

– Darei o recado, menino, só não vou prometer nada. Para a Rainha, o medalhão é importante, mas não tanto quanto a portadora. Vamos ver. Volto assim que possível. Não se esqueça: cuide dela. – Assumiu sua forma de fada e saiu voando com suas pequeninas asas.

Cheio de curiosidade, voltei à sala. Maise estava na varanda, olhando para o mar.

– Adriel, como é bonita a sua vista! Deve ser maravilhoso morar aqui. – Disse, sorrindo assim que me viu.

– Sim, é linda. – Respondi, mas não estava me referindo à paisagem. Mesmo cheia de arranhões ela estava linda. Seu cabelo brilhava ao sol e seus olhos azuis me hipnotizavam. Quando dei por mim estava tocando sua face com as costas de minha mão e a olhando embevecido. Retirei a mão e desviei o olhar constrangido. – Desculpe.

– Por quê?

– Por tê-la tocado sem sua autorização. Vai pensar que sou um aproveitador.

– Imagine, Adriel. Na verdade gostei muito. Fazia tempo que ninguém me fazia um carinho sincero.

– Ah, Maise, não diga isto. Já é difícil não me aproximar sem incentivo! Você está fazendo uma bagunça comigo.

– Eu? Por quê? Como assim?

– Você me deixa confuso. Normalmente não me sinto assim com humanas e tenho dificuldades em lidar com isto.

– Porque é um anjo?

– Sim. Não. Quer dizer, também! – Ela apenas me olhou daquele jeito, com os olhos azuis imensos bem abertos e interrogativos.

– Porque sou um anjo, também, mas é que estes sentimentos não são comuns em mim, normalmente. Não estou acostumado com eles e é perturbador. É estranho e incômodo. Eu estava planejando viajar uns dias, antes do seu acidente, para tentar me concentrar melhor, mas agora…

– Agora estou aqui, perturbando você novamente? Quer que eu vá embora? Assim pode retomar seu plano. – Ela parecia magoada ao dizer isto.

– Não! Você entendeu mal. Não é isto! Gosto de você. É adorável, surpreendente, cheia de vida, de calor, de alegria. Estar próximo a você é como estar mergulhado no sol, inundado de energia. É só que é bom demais e tenho a impressão de querer sempre mais e mais e de nunca estar satisfeito. Quero estar perto de você o tempo todo, entende? – Pronto! Falei! E seu rosto iluminou-se ao ouvir.

– Ah, que bonito isto do sol! Obrigada! Também gosto de estar com você. Gosto quando me toca e ainda mais quando me chama de querida. – Abriu um sorriso imenso e seus olhos brilharam felizes.

– Ahhh… Hummm… Bom… – Ela gostava de mim também? Estava perdido. Não encontrava mais meu raciocínio. Limpei a garganta, sacudi a cabeça e tentei recomeçar, mas ela riu. Acabei rindo junto de minha própria falta de jeito.

Texto registrado no Literar.

Versão em texto simples para impressão aqui.

Imagem: Maise encontrada originalmente em HJI.

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17) Café da manhã com Adriel

by A Itinerante - Neiva 13/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Ao abrir os olhos a primeira coisa que vi foi Adriel, sentado em uma poltrona na lateral da cama, parecendo adormecido. Fiquei alguns instantes admirando-o. Como era possível que fosse ainda mais belo de olhos fechados?

– Adriel. – Chamei baixinho. Ele abriu os olhos e sorriu, levantando-se e vindo para mais perto.

– Oi. Tudo bem? – Perguntou. Lógico que estava tudo bem. Como não estaria acordando com esta visão e se ele sorria daquele jeito? Queria acordar assim todos os dias de minha vida.

– Sim. Tive um sonho esquisito. Não me recordo direito. Parece que tinha um gatinho. – Não ia contar que ele me salvava de uma queda e que me agarrava a ele como cola super bonder e menos ainda do quanto tinha gostado de estar em seus braços.

– Onde estou? É sua casa? Por quê? – Olhei para o quarto, admirando a elegância da decoração em tons pastéis, com alguns toques de rosa. Clássico e feminino, sem exageros. Só podia ser sua casa, mas duvidava que fosse seu quarto.

– Não foi um sonho, Maise. Aconteceu de verdade. Não fique preocupada. Você está segura, agora. E sim, é minha casa. Está em um quarto de hóspedes. Aqui podia cuidar melhor de você – Falou tudo isto pausadamente, sentado na lateral da cama e com uma das mãos tocando meu punho, como se me tranqüilizando.

Lembrei então de tudo, de subir até o topo, do gatinho unhando meu rosto, de ter se transformado em uma bruxa e de Adriel, surgindo no momento exato em que estava caindo. Recordei envergonhada que realmente tinha agarrado-o quando estava voando em seus braços. “Peraí! Voando?”

– Hummm… Então foi real? Pensei que era minha imaginação fértil de artista. – Não consegui resistir a esta pequena ironia. Ele gargalhou.

– E eu preocupado que estivesse abalada emocionalmente! Você é incrível, Maise.

– Quer dizer que não apenas tem asas como voa? Você é um anjo ou algo parecido?

– Algo parecido. – Disse lacônico, mas não estava disposta a encerrar o assunto.

– Como assim?

– Vou explicar depois, prometo. Agora não é hora. Deve estar com fome e sede e precisamos cuidar de seus machucados. O que acha de tomar um banho e me encontrar na varanda? – Estava mesmo com fome, sede, com vontade de ir ao toalete e só por isto concordei.

– Ok. Não pense que vou esquecer. Você prometeu. – Levantei assim que a porta se fechou. No banheiro igualmente elegante foi impossível não me ver inteira no imenso espelho. Eu parecia uma indigente atropelada! O rosto, além de todo arranhado e inchado, tinha rastros de sangue seco, as pernas e braços estavam machucados e as roupas sujas e rasgadas.

– Meu Deus! E pensar que ele me viu assim! Que horror! – Tomei banho com cuidado para não machucar mais, coloquei roupas que encontrei no quarto – “Que gentil! Deve ter ido buscar enquanto eu dormia!” – E saí à procura da varanda. Passando pela sala, admirei mais uma vez seu bom gosto.

Era dia claro. Dormi toda a noite? Na varanda ele estava esperando próximo a uma mesa farta, linda e com flores. Segurou a cadeira enquanto me sentava.

– Coma, querida. Depois do café, Tana, minha assistente, cuidará de seus machucados. Ela tem uma poção milagrosa e logo não haverá mais o menor sinal em seu rosto, não se preocupe. – Ele deve ter notado o quanto estava envergonhada pela minha aparência grotesca.

Enquanto comemos, contei-lhe todos os detalhes de minha subida na árvore. A esta altura dos acontecimentos, tomando café da manhã ao lado de um anjo com imensas e brancas asas, não parecia tão irreal e tudo era perfeitamente possível e normal, até mesmo gatinhos que viram bruxas.

– Adriel, obrigada. Por ter chegado na hora certa, por ter me salvo e agora, todo este cuidado. Você é muito gentil. Muito obrigada mesmo!

– Maise, não tem porque agradecer. Fico feliz em ter ouvido seu chamado e ter chegado a tempo. Fico arrepiado só em pensar o que teria acontecido…

– Você sabe quem tentou me matar? E por quê? – Quando pensava nisto seriamente, sentia medo.

– Não, querida. Não tenho a menor idéia, mas estou fazendo o possível para descobrir. – Ele me chamou de querida, de novo???

– Você acredita em mim, não é? – Tinha que perguntar isto.

– Vi você lá, Maise. Não penso que teria subido até aquele galho e se pendurado por vontade própria. Por mais que pareça inacreditável, só pode ser verdade e temos que saber quem foi e a razão. Você tem alguma suspeita? Deixou alguém em sua cidade que a odeie a este ponto? Está fugindo de alguém?

– Não. Lógico que não. Também não conheço ninguém capaz de se transformar. Aliás, até vir para Portal do Sol, nunca acreditei nestas coisas. Até conhecer você, aliás.

– Ah, sim. Claro. – Ele fugiu da deixa, não parecendo disposto a conversar, pensativo. Tudo bem, eu podia esperar.

Terminamos o café e fomos para a sala. Ele chamou por Tana, que entrou rapidamente.

Tana era uma senhora de meia idade. Um pouco acima do peso. Cabelos em coque, óculos, vestido até os joelhos e avental.

– Oh, pequena, como vai? Dormiu bem? O café estava bom? – Pegou minhas duas mãos, olhando-me inteira e continuou antes que pudesse responder. – Está tão magrinha. Não deve estar se alimentando bem naquela tapera miserável onde está vivendo. Pobrezinha!

Falando sem parar foi levando-me até o sofá onde deitou-me. Abriu a cesta que trouxera e tirou alguns potinhos que colocou na mesinha próxima. Mandou fechar os olhos e senti que estava passando algo pelos ferimentos do rosto e depois das pernas e braços. Examinou a barriga para ver se tinha machucados lá também e por fim, o colo. Pegou em meu medalhão e parou subitamente com a enxurrada de palavras. Abri os olhos e ela estava observando-o fixamente.

– Onde conseguiu isto, menina? – Perguntou com voz séria.

– Ganhei de minha mãe em meu aniversário. – Respondi intrigada. – Por quê?

– Bonito. Agora não se preocupe mais com nada. Já cuidei de todos os machucados. Espere algumas horas e depois tome outro banho para tirar a pomada.

– Sim. Obrigada. – Estranhei sua mudança. Adriel e ela trocaram um olhar esquisito, como se estivessem conversando e ambos pareciam contrariados. Despediu-se rapidamente e saiu.

– Adriel, o que houve? Ela conhece meu medalhão?

– Nada, Maise. Não se preocupe. Tana é assim mesmo. Pode aguardar aqui um instante? – Saiu pela mesma porta atrás de Tana.

Estranho. Era a segunda vez que alguém tinha esta reação ao ver o medalhão. O que disse a mulher na casa de Antônio? Que era o símbolo da proteção das Fadas?

Fadas! Era só o que estava faltando. Afinal, depois de anjos e bruxas o que haveria demais em fadas? Nada, absolutamente nada! Era mesmo de se estranhar que ainda não tivesse topado com uma. Este lugar era mesmo surreal ou eu é que estava endoidando sem perceber?

Para falar a verdade, se endoidar significava ser chamada de querida por um anjo maravilhosamente belo com um sorriso estonteante que me deixa com borboletas no estômago e pernas trêmulas… Bom… Talvez as pessoas valorizassem demais isto que chamam de sanidade.

Texto registrado no Literar.

Versão em texto simples para impressão aqui.

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16) Ternura

by A Itinerante - Neiva 11/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Ao chegar em casa encontrei Liah, o anjo responsável pela terra, fauna, flora e Elementais deste principado (*). Apesar de não sermos tão íntimos ele era o mais próximo de um amigo que tinha por aqui.

– Hei, Liah. Tudo bem? – Estava contente em o ver antes de partir. Apertamos as mãos amigavelmente.

– Hei, Adriel. Soube que está indo para Celes. Gostaria que levasse algumas espécies novas que andei coletando. Pode ser?

– Claro. O que quiser. – Ele estava sempre em busca de mutações genéticas em plantas que enviava para estudo de nosso grupo de cientistas.

– Obrigado. E você? Qual o motivo da viagem? Aconteceu algo novo? – Provavelmente estava se referindo ao meu trabalho.

– Não. Estamos naquela fase de calmaria que antecede as grandes tempestades e quero aproveitar para desintoxicar um pouco enquanto ainda posso. – Seria bom falar com alguém sobre Maise, mas ele entenderia?

– Está pesando?

– Um pouco. Tenho andado meio confuso com alguns sentimentos e penso que possa ser por conta da influência das energias da Terra que absorvo. – Deveria continuar?

– Posso ajudar em algo? – Ele tinha o semblante inalterado, mas poderia jurar que estava intrigado, pois eu jamais reclamara de estar confuso e menos ainda de sentimentos.

Pensei um breve instante antes de decidir continuar. Pela proximidade com a Terra ele estava em condições de entender melhor do que qualquer um em Celes ou na Terra. Encaminhamo-nos à sala e após nos sentarmos, contei sobre Maise e tudo o que vinha sentindo desde que a conhecera.

– Adriel, você está apaixonado! – Exclamou e sinceramente não entendi o motivo de seu sorriso de contentamento.

– Liah, não sou um humano, sujeito a estes sentimentos limitados. Ultrapassamos esta fase do amor individual e amamos igualmente todos os seres viventes. Você sabe disto. Então, como posso estar apaixonado?

– Você nunca teve uma alma com a qual se identificasse? Em toda sua vida, não houve ou há alguém?

– Não. Ao menos não me recordo. Quase todos em minha família têm um par, mas são relações antigas, que se estreitaram e fortaleceram através de diversas vidas. Não conheço nenhum anjo que tenha “se apaixonado” de repente.

– Exceto…

– É verdade. Alguns anjos da guarda se apaixonam pelos seus protegidos, mas é diferente. Primeiramente existe uma razão para estarem nesta posição. Normalmente são laços antigos já. E, além disto, o sentimento nasce após um período de observação e convivência. É bem diferente de meu caso.

– Hummm… Será? Quem garante que os laços entre você e esta moça não sejam antigos também. E que apenas estejam agora se reconhecendo, mesmo sem a lembrança total? – Liah estava pensativo.

– Não. Lógico que não. Minha memória não tem travas. Se não me recordo de alguém, não é porque a lembrança esteja bloqueada e sim porque não houve ninguém importante. Sei disto!

– Bom. Supondo que seja verdade, resta a possibilidade de serem espíritos afins. Não têm uma estória comum porque ainda não tinham se encontrado, mas se a afinidade existe, basta que estejam próximos para se reconhecerem. – Concluiu.

– Enfim, isto não importa realmente. A questão é que não tem como. Não é possível! Sou um anjo e ela uma humana.

– E você não pode fazer como os outros, desistir da imortalidade e descer para viver com ela como humano? Você gosta tanto da Terra e dos humanos, não creio que seria tão grande sacrifício para você. – Liah estava certo nesta questão, mas não nas outras.

– Bom, supondo que ela também estivesse apaixonada por mim e não tenho a menor informação sobre isto e que depois de algum tempo quiséssemos isto, você sabe do meu trabalho como Caçador de Demônios. Sou talvez o único anjo que nunca poderá voltar a ser humano. Não duraria nada. Os demônios me encontrariam quase que imediatamente e não poderia me defender sem meus poderes celestes. Seria massacrado em instantes ou aprisionado, torturado e nem sei mais o quê. O pior não é isto e sim que mesmo continuando anjo, se me envolver com Maise e eles ficarem sabendo vão atacá-la para me atingir. Entende porque é impossível?

Continuamos conversando ainda por um tempo. Liah tentava argumentar, procurar soluções, mas o que? Não via solução. Aquele sentimento era fruto de um sonho, uma fantasia que jamais poderia se tornar realidade. Era apenas a voz de minha solidão e do desejo de ter alguém como todos de minha família. Alguém com quem pudesse conversar ou até ficar quieto, mas que estivesse ali, comigo.

Estávamos já nos despedindo quando ouvi claramente a voz de Maise em minha mente.

– Adriel!!! Socorro!!!

– Maise! – Mal disse isto e já estava voando pelas portas da sala, em direção à varanda e à sua casa. Nem expliquei à Liah e muito menos vi o sorriso de compreensão que surgiu em seu rosto.

Cheguei em instantes na sua casa, voando o mais rápido que pude. Onde ela estava? A casa estava aberta e vazia.

– Maise! Onde está? – Gritei em todas as direções, preocupado.

“Por favor, chame novamente.” – Eu teria chegado tarde demais?

– Adriel!!! Socorro!!! – Vinha do oeste. Segui para aquela direção, mas ainda não a via.

– Maise! Onde está? Fale mais! – Gritei novamente, esperando que ouvisse e respondesse.

– Aqui Adriel! Olhe para cima! Depressa! – Olhei para o topo da imensa árvore e gelei. Ela estava pendurada apenas por uma mão em um dos galhos mais altos.

Voei até ela no exato instante em que caiu e a peguei já no ar, despencando. Ela se agarrou em mim, chorando e tremendo.

– Adriel! Ah, Adriel! Você ouviu! Você veio! Obrigada!

E me agarrou ainda mais, seus dedos prensados tão firmemente em minha camisa que já deveria tê-la perfurado. Seu rosto estava todo ferido e sangrando. Suas mãos e pernas também estavam com machucados. O que teria ocorrido ali?

– Tudo bem. Acabou. Você está salva. Nada mais vai acontecer. Fique tranqüila. Acabou.

– Adriel, foi horrível! Tinha um gatinho e fui tirar ele de lá, mas não era um gatinho. Era uma bruxa! Ela me odeia! Vi no seu olhar. Ela queria que eu caísse e morresse. E teria morrido se não fosse por você!

Do que ela estava falando? Gatinho, bruxa? Não havia gatos aqui. Eles evitavam nossa região. E bruxas? Como assim? Será que ela estava em choque? Delirando?

Depois pensaria nisto. Estava chegando em casa já. Ela precisava tomar algo para se acalmar primeiro.

– Calma, querida. Depois me conta tudo, está bem? Pense que está comigo, a salvo e segura. Nada mais vai acontecer. Fique tranqüila. Passou. Acabou.

Entrei pela mesma porta e Liah ainda estava lá, sentado, aguardando. Passei por ele rapidamente a caminho do quarto de hóspedes e disse:

– Ela está ferida. Pode, por favor, chamar Tana? Depois nos falamos. – Tana era uma espécie de governanta de minha casa. E fada. Ao me lembrar disto, voltei e emendei: – Como humana, diga-lhe – Por hoje já bastava uma bruxa e me ver voando para Maise.

Entrei no quarto e a coloquei com cuidado na cama. Ao menos tentei. Não consegui desgrudar seus dedos de minha camisa. Ela ainda chorava e tremia muito. Sem outra opção, encostei-me na cama com ela ao colo.

– Tudo bem, pequena. Tudo bem. Relaxe. – Fiquei repetindo estas palavras, enquanto acariciava seus cabelos.

Com cuidado fui deitando-a na cama e consegui cobri-la. Aos poucos foi parando de tremer e o choro diminuindo, mas ainda não me soltava. Adormeceu com os dedos enroscados e firmes na mesma posição, prendendo-me.

Fiquei observando sua forma pequena e indefesa, cheio de ternura pelo rosto delicado, mesmo assim tão ferido.

“Quem a teria machucado? Teria já algum demônio descoberto o que eu mal conseguia admitir para mim mesmo? Teria sido por minha culpa que ela quase morrera?”

* = De acordo com a Cabala, os anjos estão organizados em 9 Hierarquias Angelicais: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potências, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos. Fonte: Terra Esotérico. Liah pertence à 3a. hieraquia, Principados, acima de Anjos e Arcanjos.

Texto registrado no Literar

Versão simples para impressão ou leitura posterior aqui.

Imagem: encontrada na net sem indicação de autoria

11/06/2009 0 comment
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15) Um gatinho em apuros

by A Itinerante - Neiva 09/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Acordei me sentindo um pouco dolorida por dentro, mas melhor, mais conformada. Meus pais estavam mortos e isto não mudaria. Aquela etapa feliz de minha vida havia acabado. Agora era tentar buscar o melhor para esta nova vida que começava. Estava neste lugar especial, sentia-me em casa e isto já era algo. Melhor do que estar na cidade onde me sentia tão só. Aqui tinha Antônio e os aldeões que foram receptivos e hospitaleiros. Tinha um espaço aberto, era só querer preencher. E por enquanto ao menos, era aqui que ficaria. Tinha paz e aconchego. E Adriel, lógico.

Fiquei pensando nele enquanto preparava meu café da manhã e depois quando o tomei na varanda. “Que gracinha é!” – Lembrei de sua gentileza ontem comigo, em todos os momentos.

“E o tratei de forma tão displicente, enquanto ele foi um perfeito cavalheiro. Até beijou minha mão e abriu a porta do carro! Meu Deus, que homem! Bom… Sem contar que é um gato! E que gato!!!” – Lembrei dos detalhes todos de seu rosto e de seu corpo e decidi pintar mais um pouco.

Aliás, não queria saber do passado por hoje. Amanhã voltaria ao baú. Hoje viveria o presente. Não teria forças para outro embate emocional e só por decidir isto já senti alguma melhora em meu ânimo.

Primeiro um banho, depois arrumar a casa, lavar roupas e fazer – ao menos tentar – uma comidinha gostosa e finalmente praia e pintura. Sim. Era o que precisava por hora.

– Ahhhhh!!!!!!!! – Levei mesmo um tremendo susto ao ver meu rosto no espelho após o banho. Meus olhos pareciam duas naves espaciais de tão inchados e roxos por conta do choro noturno. “E se encontrasse com Adriel na praia? Que vergonha!” – Fiquei um tempão passando compressa de pano gelado até que ele parecesse melhor.

Arrumei a casa rapidamente e depois lavei as roupas. Principalmente o pijama. “Aff!!! Só mesmo você, Maise, para dormir com um pijama com 20 anos de pó acumulado!” – Acabei rindo sozinha ao me lembrar de ontem.

Decidi fazer e fiz, seriamente agora, uma lista com minhas prioridades de compra para a casa. Por menos tempo que ficasse ali não poderia continuar vivendo sem eletrodomésticos básicos como microondas, lavadora de roupas, aparelhos de som e TV. “Hum… Será que aqui pega algum canal de TV?” – inclui uma antena por via das dúvidas. Teria que ver com Antônio estas coisas.

Cansada de rodear encarei a cozinha ou deveria dizer o dragão com a boca escancarada prestes a me queimar em labaredas de fogo?

Resumindo: o arroz ficou um grude total, a carne uma salmoura só e acabei me contentando com a salada mesmo. Anotei na lista de prioridades um livro de receitas, tratei de sumir rapidamente com os vestígios de meu fracasso e feliz por ter dado cabo de minhas atividades obrigatórias fui para onde o prazer se encontrava: praia e pintura.

Passei a tarde pintando e quando estava muito quente mergulhava para me refrescar. Adriel estava ficando bom, mas queria pintar tendo o modelo à minha frente e não minha imaginação apenas. Será que ele não viria à praia hoje? Esperei com alguma ansiedade, mas até o final da tarde nem sinal dele. Tentei não me sentir tão decepcionada. Amanhã acordaria bem cedo e talvez o visse no nascer do sol.

Estava guardando meus materiais quando ouvi um gato miando.

– Estranho. Tem um gato aqui? – Agucei o ouvido para descobrir de onde vinha. Era lá fora. Fui seguindo o som até a árvore imensa que tinha um pouco antes da cabana. Lá estava o danado. Um gatinho pequeno.

– O que foi gatinho? Não consegue descer? Espera que vou aí te pegar. – Procurei falar enquanto me preparava para subir. Não queria o espantar. Era tão bonitinho. Não adiantou. Quando subi um galho, ele pulou para o próximo.

– Droga! – Praguejei sem querer. Continuei falando carinhosamente com ele e subindo, mas quanto mais eu subia, mais ele subia também.

“Bom… Uma hora esta árvore tem que terminar e então eu o pego!” – Contente com o raciocínio, continuei subindo. Estava quase no topo agora e era bem alto. Nem iria olhar para baixo por enquanto. O gatinho estava encurralado no último galho. Não tinha mais para onde fugir. Parei e falei um pouquinho mais, bem baixinho. Preparei-me para subir.

Ele pulou em meu rosto! E começou a me unhar! Eu estava em pé e perdi o equilíbrio. Por um triz não caí. Consegui agarrar-me ao galho, mas fiquei suspensa pelas mãos. Meu coração estava acelerado com o susto do pulo do gato e com a quase queda, mas segurei firme. Estava próxima ao tronco. Era só avançar um pouco com as mãos e depois escorregar apoiada no tronco até o próximo galho, abaixo.

Quando comecei a fazer isto, o gatinho que tinha se afastado para a ponta do galho, começou a se aproximar novamente. E quando estava perto, mudou. Virou uma mulher esquisita, com cabelos brancos e orelhas pontudas.

“O que é isto!” – Fiquei apavorada por ver sua expressão fria e má. Ela pisou em meus dedos. Segurei a dor, mas não ia agüentar muito tempo. Eu ia cair! E morrer!

– Adriel!!! Socorro!!!

“Ah, meu Deus, por favor, por favor, faça com que ele esteja perto e ouça!”

– Adriel!!! Socorro!!!

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14) Visita noturna

by A Itinerante - Neiva 08/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Ainda era noite. Depois que deixei Maise em casa, tentei relaxar tocando. Apesar de ter escolhido uma composição que combinava com meu estado de espírito, não consegui me abandonar à música. Também não consegui me prender na leitura. Nada parecia capaz de tirá-la de minha mente. Acabei me dando por vencido.

Sentei na varanda com o céu estrelado sob minha cabeça e o ruído pacificador no mar ao fundo e deixei os pensamentos vagarem a vontade. E mesmo isto não foi o suficiente. Ao contrário, apenas aprofundou o desejo de estar novamente com ela, ao menos próximo. Foi quando cometi a insanidade de voar até sua cabana, apenas para estar perto.

Estava trapaceando, enganando-me. Sabia disto. Não iria conseguir apenas ficar do lado de fora, mas seria demais admitir isto inteiro. Tinha que engolir pequenas partes de cada vez desta esquisita doença que me tomava o controle assim.

Exceto por uma fraca luminosidade, parecia que já tinha ido dormir. Fiquei em sua varanda alguns momentos, tentando ouvir e tudo estava em silêncio quando passei para o lado de dentro, não sem receio. Já que vira minhas asas, não adiantaria ficar imaterial, porque continuaria visível para ela. Se ela estivesse acordada eu realmente estaria em apuros, sem ter como me explicar. O que poderia dizer?

“Oi. Não consegui ficar longe e por isto estou invadindo sua casa e sua privacidade.” – Imaginei a cena e sua expressão incrédula. Ah! O que estava fazendo? Tinha que ir embora. Este comportamento era lamentável.

Ouvi um pequeno soluço e olhei para a cama. Ela estava dormindo, segurando um livro. Ainda tinha vestígios de lágrimas em seu rosto.

“Porque chorara?” – A idéia dela sofrendo me fez mal. O que a entristecera assim? Teria encontrado notícias ruins nas coisas de seu pai?

Olhei para a cabana, mas tudo parecia igual. O caixote estava fechado.

A tela continuava virada para a parede e senti comichões de tanta vontade de desvirá-lo, mas não podia. Ao menos isto eu faria: já que não tive a decência de respeitar seu espaço, ao menos poderia não remexer em suas coisas. Se ela quisesse, mostraria.

Ela continuava soluçando de vez em quando e eu sentia um aperto no peito a cada um deles. Vontade de deitar-me ao seu lado, colocar sua cabeça em meus braços e tocar seus cabelos para a confortar. Fui embora antes que perdesse o miserável fio de controle que restava.

Esperei pelo amanhecer na praia, sentado em minha pedra. Sabia que ela não viria, não hoje ao menos. Devia ter dormido tarde e o choro certamente a teria deixado ainda mais cansada. Acordaria tarde.

Enquanto esperava, pensei em todas as providências para me ausentar por alguns dias, talvez uma semana. Iria para casa, em Celes, desintoxicar das energias pesadas absorvidas diariamente para manter o corpo humano. Certamente era isto que estava me perturbando. Estes pensamentos mais práticos tiveram o dom de me acalmar e quando o sol surgiu, energizei-me rapidamente e voltei para casa.

Preparei tudo devagar. Visitei o complexo, conversei com meus assistentes, tomamos algumas decisões e estava tudo pronto no início da tarde. Queria apenas me despedir de Maise, para ter certeza de que ficaria bem durante minha ausência.

Voei novamente até sua cabana. Tudo continuava em silêncio, mas as janelas estavam abertas. Bati na porta e aguardei. Como não respondeu, olhei pela janela e não a vi.

“Deve estar na praia.” – Pensei e fui em direção à trilha. Assim que dei na praia eu a vi, virada para o mar e de costas para mim. Estava pintando. Fui me aproximando e logo pude ver o que pintava. Aquela parte da praia, o mar, as pedras e eu??? Recuei com o susto e voltei para a trilha. Oculto agora pela vegetação, observei-a ao mesmo tempo em que tentava compreender o que vira.

“Então ela também pensa em mim?” – Não queria, mas pensar nisto me deixou mais feliz. Tentei sem sucesso não sorrir e senti-me meio bobo por estar tão contente só porque ela estava me pintando.

Voltei para casa devagar. Agora mais do que nunca sabia que teria que me afastar.

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08/06/2009 0 comment
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13) O Baú de meu pai

by A Itinerante - Neiva 06/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Suspirei aliviada quando Adriel se foi. Estava difícil esconder a emoção. Desde o primeiro minuto que vi o baú, soube que iria desmoronar e não queria ninguém – muito menos ele – por perto quando isto acontecesse. Desatei a falar para me distrair o suficiente até estar só em minha cabana.

“Ainda não.” – Pensei. Não queria me entregar às saudades neste momento. Primeiro queria ver tudo que tinha ali dentro.

Antes mesmo dele sair já tinha tirado as peças de roupa que estavam por cima, protegendo os papéis e objetos de baixo. Peguei primeiramente um rolo grande de telas.

“O que papai pintara enquanto estivera ali?” – A ansiedade me queimava, mas o levei até a mesa abrindo com cuidado para não correr o risco de estragar. Depois de tanto tempo guardadas, não sabia o estado em que estavam.

– Mamãe! – Exclamei surpresa ao reconhecer nela a jovem retratada na primeira tela, estranhando sua juventude. “É lógico, anta!!! Você nem tinha nascido ainda!” – Ri ao perceber minha estupidez e a observei enlevada. Tão absurdamente linda. Teria sido assim realmente ou seriam os olhos generosos de meu pai? Não que não fosse bonita como a recordava, duas décadas após, mas nesta tela surgia como a criatura mais bela que jamais vira. “Exceto ele.” – Corrigi mentalmente quando o rosto perfeito de Adriel surgiu em minha mente. – “É. Exceto ele.”

Depositei a tela com cuidado em cima da cama e olhei a próxima. Mamãe novamente. Na praia agora. Na anterior estava em um lugar que eu ainda não conhecia, perto de algumas árvores. Na próxima e na próxima e em todas: mamãe. Pintada com diversas técnicas e em várias poses, mas sempre sorrindo. Nas pedras, saindo do mar, caminhando pela orla, na cabana, na entrada, em outros lugares desconhecidos, mas sempre ela e apenas ela. Com os cabelos compridos soltos, trançados, presos, com flores e sem. Vestidos leves e graciosos, aquela pose aristocrática de princesa que lhe era tão natural e o seu olhar.

Impossível deixar de notá-lo repetido em todas as telas, em qualquer posição que estivesse. Era o mesmo olhar dela para ele que vi infinitas vezes em casa e que parecia derreter de tanto amor, como se contemplasse embevecida uma maravilha. Quase o mesmo olhar dele para ela.

Antes que a emoção me pegasse de jeito, enrolei as telas novamente e voltei ao baú.

Cadernos. Contei nove deles. Abri o primeiro e reconheci a letra de meu pai e sua bagunça típica. Palavras soltas, riscadas, acrescentadas. Frases, desenhos, símbolos. Nada coerente a olhares menos acostumados, mas para mim surgia como um texto corrido de tão fácil. Papai tinha este hábito, de anotar coisas soltas conforme ia pensando ou lembrando, para deixar registrado e depois não esquecer alguma idéia ou assunto. Em casa tínhamos montes destes cadernos.

A primeira página deveria ser do dia em que chegou. Desenhos de caminhos esburacados ao lado de símbolos de xingamentos, lista de compras de mantimentos, anotações de cores: amarelo, ouro, abóbora. Um sol. Ri. Papai deve ter gostado da luz daqui, em suas primeiras impressões.

“Meu Deus! Os diários de papai!” – Meu coração pulava descontrolado. Com certeza continha toda a estória deles. Demoraria a ler tudo, mas aqui estava!

Voltei para o restante do baú. Mais roupas dele. Materiais de pintura. Pincéis, tintas, lápis, carvão, papéis, esboços. Paisagens e mamãe ou partes dela. Estudos de suas mãos, pés, pescoço, cabelos, face.

Um lenço feminino. Levei ao nariz e aspirei, mas o perfume se fora. Será que naquela época ela já tinha aquele cheiro de folhas verdes que me fazia lembrar o sereno nas folhas das plantas de nosso jardim?

Amarrei o lenço no pescoço e continuei a tirar objetos do caixote. Mais algumas roupas. Um pijama. Ri novamente, enternecida com as lembranças de meu pai nestes pijamas de malha de algodão confortáveis.

Tirei meu vestido e o vesti, dobrando mangas e pernas. A sensação de aconchego foi tão forte que marejou meus olhos. Forcei-me a continuar.

Uma pasta agora. De plástico, com elástico. Papéis, contas, correspondências. Passei os olhos apenas. Teria que olhar com calma depois. Contatos com seu marchand. Erick. Não era o mesmo. Porque teria mudado?

Alguns poucos livros. Dois de arte, um de viagens, um romance e um de poesias. Papai amava ler, mas parece que aqui não lia muito, se bem que o de poesias aparentava ter sido muito manuseado.

Folheei-os rapidamente procurando por algum papel. Na coletânia de poesias, uma página estava marcada com uma flor seca. Uma rosa. Lembrança de mamãe, com certeza. Era um poema de E. E. Cummings, traduzido por Augusto de Campos:

“nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.”

“Nossa, que lindo!” – Quem será que tinha marcado a página? Ele ou ela? Leriam juntos?

Com o livro nas mãos, deitei na cama e tentei os imaginar no ambiente. Ela teria morado aqui ou apenas o visitava? Visualizei ambos em diversas cenas domésticas e impressionei-me de como era fácil ver os dois neste local. Tinha jeito de ninho de namorados.

E eu? Teria sido concebida nesta cama? Seria por isto que saíram apressados de Portal do Sol? Porque ela estava grávida? Teria um pai dominador? Um namorado ciumento?

Antes que minha imaginação fértil entrasse em delírios maiores, resolvi guardar tudo e continuar amanhã. Precisava de um descanso agora. Escovei os dentes, peguei meu copo de água e deitei ainda vestindo os pijamas de meu pai, com o lenço de minha mãe ao pescoço e o livro ao lado.

Estava me sentindo esquisita. Feliz com este passado descoberto, mas com muitas saudades deles. Reli o poema de Cummings novamente.

“só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas”

Uma lágrima vazou através do frágil dique que tentava há horas manter. Deixei vazar. E várias seguiram até que a barreira desmoronou de vez. Não tentei reconstruir. Soltei a imensidão de saudades, abraçada ao livro que os tinha, até dormir ainda soluçando.

Texto registrado no Literar.

Imagem encontrada aqui.

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12) Descobertas

by A Itinerante - Neiva 04/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

Antes que chegássemos à pista de dança Antônio nos chamou dizendo ter uma surpresa para Maise. Fomos até uma espécie de depósito, cheio de móveis velhos, livros e outros objetos. Apontou para um canto e mostrou um caixote grande, dizendo:

– Maise, não tenho muito mais a dizer sobre seu pai do que já contei ao telefone. Ele era muito discreto. Apareceu um dia, vindo de algum lugar ao sul e disse estar procurando um lugar que tivesse a luz certa para pintar. Hospedou-se na cabana que era minha na época e algum tempo depois fez uma oferta irrecusável. Declarou-se apaixonado pelo local e que estava pintando como jamais conseguira antes.

– Nunca falou sobre parentes ou recebeu visitas? – Ela quis saber.

– Não que eu tenha visto, ao menos. Ele permanecia semanas sem aparecer na vila. E quando vinha era mais para comprar mantimentos. Vez por outra dizia que precisaria ir até a cidade e algumas vezes enviou pacotes grandes pelo correio. Creio que eram suas telas.

– Você viu as pinturas?

– Vi várias. Eram muito bonitas. Embora eu não seja um grande entendedor, sabe? Só achava uma belezura. Foi por isto que trouxe vocês aqui.

– Por causa das pinturas? – Ela estava ansiosa agora.

– Sim. Um dia ele apareceu acompanhado de uma mulher muito bonita que eu nunca tinha visto antes. Disse que teria que viajar, que não sabia quando voltaria e pediu-me para cuidar da cabana enquanto estivesse fora. Foi tudo. Não me explicou nada mais. Subiu no carro com ela e se foram. O restante você sabe: nunca mais voltou e nem mesmo entrou em contato.

– Nem mesmo um telefonema?

– Não. Nada. Depois de algumas semanas, fui à cabana para arejar um pouco e percebi que devia ter saído apressadamente porque deixou vários objetos pessoais. Eu os trouxe para casa. Parecia mais seguro, entendem? E coloquei neste caixote. Aí tem várias pinturas e tudo que tirei de lá. Espero que encontre alguma informação. Nunca fiquei a vontade para olhar. Não parece certo remexer em coisas dos outros, concorda?

– Oh! – Maise olhou para o caixote, maravilhada. – Queria abrir agora!

– Melhor o levarmos para a cabana e lá você olha tudo com calma. O que acha? – Falei pela primeira vez.

– Sim, sim. Foi também por isto que te chamei Adriel. Para ajudar a levar e depois tirar. Está mais pesado do que parece. – Antônio demonstrou tentando erguer uma ponta.

– Adriel, você ajuda? Quero ir para casa agora. Estou ansiosa demais para ver tudo! – Ela implorou e é lógico que ajudaria.

Peguei o caixote facilmente e só procurei demonstrar alguma dificuldade para não desconfiarem de minha força. Antônio ajudou a apoiar em uma das pontas e voltamos à sala. Despedimos-nos e saímos logo após colocar o caixote no porta-malas do carro.

Imaginando como ela estaria ansiosa para chegar procurei dirigir o mais rápido que poderia. Ela estava agitada, pensando em voz alta. Ouvi apenas, concordando quando necessário.

Chegamos em instantes e ela correu para abrir a porta enquanto eu levava o caixote depositando-o ao pé da cama. Ajudei a abrir e me despedi. Por mais que estivesse curioso este momento era muito particular. Acho que ela nem percebeu minha saída, respondendo à despedida automaticamente, com a atenção totalmente presa aos papéis e objetos que se avistavam agora.

Voltei para casa insatisfeito. Perdi a oportunidade de dançarmos juntos e também de voltarmos conversando tranquilamente e sabendo mais.

Ela era completamente espontânea e totalmente transparente. Cativante. Encantadora.

Tinha imaginado que esta noite bastaria para acabar com meu interesse. Que engano… Agora estava ainda mais instigado e interessado.

Eu queria mais. Não queria ter ido embora. Queria estar lá ao seu lado, partilhando as descobertas, vendo seu rosto revelar as emoções que sentiria, mas era errado. Eu sabia disto e forcei-me a relembrar todos motivos para ser errado. Perigoso para nós e principalmente para ela. E, além disto, um anjo e uma humana? Não. Impossível.

Amanhã me concentraria no trabalho e a esqueceria.

Texto registrado no Literar

Imagem daqui.

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11) A Elfa Eileen

by A Itinerante - Neiva 01/06/2009
Escrito por A Itinerante - Neiva

(narrador)

Rita saiu a passos rápidos da residência e com a cabeça baixa, olhando para os lados de vez em quando, encaminhou-se para fora da vila na direção da estrada. Uma vez lá, andou poucos metros antes de entrar em uma trilha pouco visível. Caminhou por alguns minutos e parou em frente a um tronco de árvore oco. De dentro dele retirou um objeto semelhante a um pêndulo com guizos. Balançou-o ritmicamente com os guizos produzindo um som simétrico e baixo. Após fazer isto por algum tempo, parou e esperou.

Do tronco começou a sair uma névoa fina e branca que, subindo e espalhando-se pelas laterais acabou por fazer um desenho oval claro e transparente, semelhante a um espelho. Quando se estabilizou, na área central do espelho surgiu uma imagem que em poucos instantes estava completamente definida.

Era uma figura feminina bastante parecida com uma humana, diferindo apenas pelas orelhas pontiagudas e os cabelos brancos apesar da face jovem. O corpo bem delineado e as vestes sensuais compunham uma fêmea de beleza rara e exótica. Uma elfa.

– Por que me chama humana? – Perguntou observando a mulher.

– Eileen… – Rita foi interrompida abruptamente.

– Senhora Eileen. – Exclamou a elfa, parecendo contrariada com a intimidade do tratamento.

– Sim, desculpe-me Senhora Eileen. Conforme o combinado, somente utilizei o espelho porque pediu para a avisar se aparecesse alguém novo na vila portando algo das fadas.

– Conte tudo, rápido mulher! – Disse rispidamente.

– Chegou uma jovem há alguns dias e está na cabana abandonada. Disse que era de seu pai. E hoje, em um jantar de Boas Vindas que Antônio ofereceu a ela, mostrou-me um colar com o símbolo das fadas. Não parece ser cópia e sim original. Mesmo que eu nunca tinha visto um antes é bem feito demais, de ouro com pequenos brilhantes.

– Como ela é?

– Uns 20 anos mais ou menos. Cabelos dourados, cacheados. Olhos bem azuis. Bonita. Pequena.

– O que ela veio fazer em Portal do Sol?

– Parece que quer saber mais sobre seu pai e parentes, mas não sei ao certo. E estava acompanhada por aquele rapaz da clínica, Adriel.

– Está certo. Quero que continue de olho e qualquer novidade a respeito, volte aqui imediatamente. Você será recompensada hoje e muito mais se continuar trazendo notícias. – Sacudiu um saquinho próximo ao espelho e moedas douradas caíram na terra, aos pés de Rita.

– Obrigada, senhora. Muito obrigada mesmo. Não vou lhe decepcionar, verá. – Rita exclamou afoita enquanto recolhia seu pagamento, nem vendo que o espelho já se fora, restando apenas o velho tronco.

Em seus aposentos Eileen parecendo alterada, andava de um lado para outro enquanto falava consigo mesma:

– Ainda bem que deixei esta humana vigiando. Sabia que esta desgraça iria acontecer mais cedo ou mais tarde! Tinha que ser logo agora que estou tão perto? Será uma questão de dias até chegar aos ouvidos da rainha. Tenho que impedir. E tem que ser rápido. Mas como???

Texto registrado no Literar

Imagem: postada com autorização da artista Vervex

01/06/2009 0 comment
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