A Itinerante
  • Home
  • Blog
    • Análises
    • Notícias
    • Guias
    • História / Lore
  • Youtube
  • Análises
  • “Tá Tudo aqui”
  • Grupo Whatsapp

O Corvo – Edgar Allan Poe

by A Itinerante - Neiva 02/12/2008
Escrito por A Itinerante - Neiva 02/12/2008
458


The Raven – ilustração de Gustave Doré

O CORVO
Edgar Allan Poe

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.»
«É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais»
Todos — todos lá se foram. «Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh’alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

Tradução de Fernando Pessoa

…

No gênero “poema triste” O Corvo é considerado imbatível, talvez o mais belo e eterno. O personagem principal sofre pela morte da amada Lenore e é assombrado por um corvo que repete exaustivamente a palavra “Nunca mais” ao longo das estrofes.

O mais interessante (ao meu ver) é que o autor, Edgar Allan Poe, não estava triste quando o escreveu, menos ainda sofrendo pela morte de que quer que seja. Ao menos não mais triste do que seu estado normal de depressivo e alcoolatra.

Poe queria escrever um poema imortal, e toda a escrita, cada palavra, cada idéia foi cuidadosamente pensada e calculada para exercer este efeito melancólico, sobrenatural e romantico.

Para quem se interessar o próprio autor escreveu sobre a metodologia de criação deste poema. Leia a Filosofia da Composição de O Corvo, por Edgar Allan Poe, aqui no Ofício Literário.

A dor de viverPoesias
0 comment 0 FacebookTwitterWhatsappTelegram
A Itinerante - Neiva

Post anterior
Van Gogh e Edvard Munch
Próximo post
Os Homens Ocos – T. S. Elliot

Deixe um comentário Cancelar resposta

Save my name, email, and website in this browser for the next time I comment.

Videos Destaques do nosso canal

Categorias

  • Análises (44)
  • Destaques (80)
  • Diário (1)
  • Discussão (26)
  • Gameplays (2)
  • Guias (146)
  • História / Lore (26)
  • Notícias (141)
  • Sem categoria (903)
  • Tá Tudo Aqui (7)
  • Walkthrough (40)
  • Youtube (72)

Posts Recentes

  • Está Começando Final Fantasy XIV? Evite Estes Erros

    13/06/2026
  • Atelier Karia: The Night Kingdom & The Guide of Memories é anunciado

    09/06/2026
  • Tales of Eternia Remastered é anunciado

    09/06/2026
  • Lords of the Fallen II é anunciado para Nintendo Switch 2 e promete expandir seu mundo sombrio

    09/06/2026
  • RuneScape: Dragonwilds chega ao Nintendo Switch 2 e leva a série ao gênero survival crafting

    09/06/2026

Comentários Recentes

  • http://Final%20Fantasy%20XVI%20–%20Tá%20tudo%20Aqui!%20(Guias,%20Tutoriais,%20Farms,%20História,%20Equipamentos,%20Eikons%20e%20mais)%20-%20A%20Itinerante
    Final Fantasy XVI – Tá tudo Aqui! (Guias, Tutoriais, Farms, História, Equipamentos, Eikons e mais) - A Itinerante

    […] Explicação de toda a história de jogo e algumas importantes teorias…

  • http://Final%20Fantasy%20XVI%20–%20Tá%20tudo%20Aqui!%20(Guias,%20Tutoriais,%20Farms,%20História,%20Equipamentos,%20Eikons%20e%20mais)%20-%20A%20Itinerante
    Final Fantasy XVI – Tá tudo Aqui! (Guias, Tutoriais, Farms, História, Equipamentos, Eikons e mais) - A Itinerante

    […] em vídeo)Tutorial do Sistema de CombateUma nova chuva de informações importantes…

  • http://Final%20Fantasy%20XVI%20–%20Tá%20tudo%20Aqui!%20(Guias,%20Tutoriais,%20Farms,%20História,%20Equipamentos,%20Eikons%20e%20mais)%20-%20A%20Itinerante
    Final Fantasy XVI – Tá tudo Aqui! (Guias, Tutoriais, Farms, História, Equipamentos, Eikons e mais) - A Itinerante

    […] Minha Gameplay CompletaO que sabemos até aqui (versão em vídeo)Tutorial do…

  • http://Final%20Fantasy%20XVI%20–%20Como%20criar%20a%20espada%20Götterdämmerung%20-%20A%20Itinerante
    Final Fantasy XVI – Como criar a espada Götterdämmerung - A Itinerante

    […] Mestre – Beemote-ReiSão todas caçadas de Rank S e para encontrá-las…

  • http://Final%20Fantasy%20XVI%20–%20Tá%20tudo%20Aqui!%20(Guias,%20Tutoriais,%20Farms,%20História,%20Equipamentos,%20Eikons%20e%20mais)%20-%20A%20Itinerante
    Final Fantasy XVI – Tá tudo Aqui! (Guias, Tutoriais, Farms, História, Equipamentos, Eikons e mais) - A Itinerante

    […] Final Fantasy XVI – Épico e Incrível, mas poderia ser muito…

  • Twitter
  • Youtube
  • Whatsapp
  • Discord

@2021 - All Right Reserved. Designed and Developed by PenciDesign


Voltar para o topo
A Itinerante
  • Home
  • Youtube
  • Blog
  • Análises
  • “Tá Tudo aqui”
  • Categorias
    • Notícias
    • Guias
    • Walkthrough
    • História / Lore
    • Discussão
    • Sem categoria